‘Touro Indomável’: o filme das vidas de Martin Scorsese e Robert De Niro

‘Touro Indomável’: o filme das vidas de Martin Scorsese e Robert De Niro

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sábado, 03 junho 2017
Boxe

O ex-pugilista Jake La Motta, hoje com 95 anos, se gabava por nunca ter sido derrubado, em seis embates, pela lenda Sugar Ray Robinson. Com a carreira de altos e baixos (na balança, inclusive) e alternando lutas entre as categorias peso médio e o médio-pesado, La Motta tem parte de sua história contada no filme “Touro Indomável” (Raging Bull, de 1980), do gênio da espécie Martin Scorsese. Não bastasse o autor, a película é estrelada por Robert de Niro e Joe Pesci, colaboradores e amigos não tão menos geniais do diretor.

De Niro e La Motta, que participou da produção como consultor – Crédito: IMDB

O jornalista Peter Biskind, no livro “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, conta que o filme só aconteceu por muita insistência de De Niro, que levara o livro biográfico de La Motta para Scorsese no set de filmagens de “Alice Não Mora Mais Aqui”, de 1974, antes mesmo da dupla protagonizar o soco no estômago “Táxi Driver”.

Biskind escreve que De Niro obtivera de Irwin Winkler, produtor de “Rocky, um Lutador”, a promessa de que ele financiaria também “Touro Indomável” com um porém: o diretor teria de ser Scorsese, que no fim dos anos 1970 estava nocauteado em drogas e desconversava toda vez que o ator ousava falar de “Touro Indomável”.
Convencido, após muita luta, por De Niro de que o personagem Jake La Motta (apesar da repulsa que ele pode causar em alguns expectadores) deveria ter aquela etapa de sua vida contada (um pouco mais de 20 anos, entre o começo da década de 1940 e meados da de 1960), o diretor fez de “Touro Indomável” o filme de sua vida. Dispensou a ele toda a energia que sobrara, em meio à recuperação de sua saúde e do seu ego como criador.

Scorsese roda a maioria do longa em preto-e-branco. As únicas cenas coloridas são as de filmes particulares de La Motta com a mulher e a família. Talvez aqueles fossem os únicos instantes de alegria de uma vida marcada pela violência (contra a esposa e o irmão, ante os oponentes no ringue), paranoia e o excesso de peso.

Joe Pesci (Joey La Motta) é irmão e empresário do personagem de De Niro – Reprodução

O filme começa e termina com La Motta/De Niro mais gordo (o ator ganhou 27 quilos ao longo da produção), se preparando para entrar no palco de uma boate onde, após se aposentar, passar um tempo na cadeia e acabar com o seu casamento, ganhava a vida como (des)animador da plateia.

Em seu interim, entre tantas qualidades (música, fotografia, edição), o destaque da película fica por conta das cenas no ringue, palco onde a arte e a resistência de La Motta são melhores que suas piadas carregadas de preconceito. Em meio a sangue e suor, fumaça e flashes de máquinas fotográficas (naquela época, era uma lâmpada queimada por flash) dão às tomadas uma plástica peculiar. Os golpes trocados por La Motta e seus adversários são de impressionante realidade e barulho desconfortáveis para alguns (dizem que os sons foram gravados de melões jogados ao chão). Além disso, há, num determinado momento do longa, o corte do som ambiente do ginásio para que as atenções se concentrem no foco que irá capturar expressões dos lutadores em câmera lenta, ações que só um gênio do Cinema é capaz de pensar. Obrigado, De Niro!

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Leonardo Guandeline

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