Sócrates, Casagrande e a falta de atores políticos no futebol

Sócrates, Casagrande e a falta de atores políticos no futebol

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terça-feira, 31 janeiro 2017
Futebol Brasileiro

Esporte das massas, o futebol há alguns anos carece de atores políticos. Em tempos de arenização/elitização, faltam atletas que questionem, por exemplo, a desigualdade nas cotas de tevê dos clubes, ou a fuga das massas dos estádios por conta do preço dos ingressos, ou então o que canalhas da pior estirpe fizeram com o Maracanã. Coincidentemente, por mais que a democracia e os direitos civis tenham sido quase que totalmente ceifados recentemente, temos hoje liberdade de expressão.

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Lançado no ano passado, livro conta história de amizade e amor entre os dois maiores expoentes da Democracia Corintiana – Reprodução – Foto de capa: Alfredo Rizzutti/Agência Estado

Quando a chamada Democracia “Corinthiana” (o professor Pasquale Cipro Neto já explicou que o Corintiana é sem o agá. Confiram aqui) existiu, no início dos anos 1980, o país vivia seus últimos anos de ditadura. As vozes eram quase sempre caladas, e o questionar, proibido.

Foi nessa época das trevas que começou o amor entre Sócrates e Casagrande, assunto do livro que leva o nome dos dois maiores expoentes da Democracia Corintiana, lançado em meados do ano passado e escrito pelo último em pareceria com o jornalista Gilvan Ribeiro. Quando, em 1982, os brasileiros voltaram às urnas, após longos anos, era o manto alvinegro que estampava “dia 15 vote”, mensagem decidida democraticamente pelo grupo (que também tinha como integrantes Wladimir, Biro-Biro e Adilson Monteiro Alves, entre outros). E a democracia não estava apenas na camisa corintiana, ou nos comícios pelas eleições diretas para presidente. Ela, à época, decidira, por exemplo, pelo fim da concentração e na escolha de futuros companheiros daquela equipe.

Personagens notáveis dentro e fora de campo, Sócrates e Casagrande são “despidos” na obra. O primeiro, por exemplo, tinha vez outra certa incoerência política, como lembrou o amigo e publicitário Washington Olivetto, diretor de Marketing nos tempos da Democracia (havia até uma publicidade incentivando os corintianos a mandar ideias para o publicitário utilizar nas campanhas do Timão). E mais, tinha por hábito pintar quadros, dá-los de presente a amigos contanto que…as obras não saíssem da casa do Doutor.

Já Casagrande volta a falar sem rodeios sobre drogas e suas internações (já o fizera no livro “Casagrande e Seus Demônios”, também redigido em parceria com Gilvan), além dos motivos que o levaram a ficar tanto tempo afastado do amigo (o livro começa com Casão correndo desesperado para a UTI, com medo de não ter tempo de falar que amava o velho companheiro).

Entre política, drogas, música, porres, mulheres, viagens e futebol, “Casagrande & Sócrates – Uma História de Amor” é recheados de bastidores da época da Democracia e da vida de ambos os personagens. Ao final, um diálogo absolutamente fidedigno a esse sentimento recíproco de ambos acontece, em meio a uma viagem envolvendo planos diferentes, amizade, provocações, alucinações e bom humor. Uma obra para os entusiastas não só do futebol, mas dos seres humanos (por mais errantes, serão eles sempre mais importantes que as ideias que criam, modificam, aperfeiçoam ou traem, disse certa feita François Truffaut).

Crédito da imagem em destaque: Sport Press.

Leonardo Guandeline

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