Seo Reis e o placar do Tricolor no Jaçanã

Seo Reis e o placar do Tricolor no Jaçanã

Like
1418
3
quinta-feira, 02 março 2017
Futebol Brasileiro

A história deste fim de semana na crônica da “Cultura Poliesportiva” fala de uma arte um pouco diferente, a tapeçaria (ou melhor, conta um pouco da história de um tapeceiro), e uma paixão futebolística: o São Paulo Futebol Clube. Também é artístico um placar artesanal, que, em tempos de internet e de informações quase que instantâneas, acaba por informar muitas pessoas.

20170301_095804[2468]

O placar de Seo Reis ainda exibia nesta quarta-feira o resultado do jogo contra o Novorizontino – Foto: Leonardo Guandeline

O Jaçanã, para quem não conhece, é um bairro limítrofe de um dos extremos (Nordeste) da cidade de São Paulo. Imortalizado pelo corintiano roxo Adoniran Barbosa, é lá que o senhor Reis Francisco Nardi, de 81 anos, coloca – ao lado da fachada de sua tapeçaria – um placar com os resultados de seu clube de coração, o São Paulo. A rua de seu comércio é passagem de algumas linhas de ônibus, muitas vindas da vizinha Guarulhos. “Tem mais de 20 anos que eu faço isso”, conta, “mas só quando o time ganha ou empata (risos)”, acrescenta.

Bastante rústico, o informativo, de papelão, é colocado sobre uma bandeira do Tricolor. Ao lado, lê-se “próximo”, ou seja, “que venha o seguinte adversário”. O placar é motivo de alegrias, brincadeiras e provocações. Tudo na esportiva. “Quando perde, tem gente que aproveita para provocar (risos). Mas tem quem torce pelo São Paulo, também. Esta bandeira eu ganhei. E dei a que tinha para um motorista de ônibus são-paulino”, diz o Seo Reis, tocando o símbolo são-paulino e fazendo questão de falar sobre a origem do nome:

“Nasci num Dia de Reis (6 de janeiro). Mas meu pai só me registrou dia 10. Ele trabalhava na Força Pública (atual Polícia Militar) e não folgava, era plantão direto. Então ele demorou esses quatro dias. Sou Reis Francisco Nardi, que é italiano, mas eu nem sei de onde vem”, brinca, ao mesmo tempo em que cumprimenta um vizinho que passa em frente ao comércio. Conhece praticamente todos.

São-paulino desde criança, a arte de Seo Reis vai além do placar do Tricolor. A tapeçaria é um ofício que pratica desde moço, sempre na Zona Norte paulistana. “Já tive (oficina) na Vila Mazzei, na Vila Gustavo e agora aqui. Tem mais de 20 anos que eu vim pra cá, montei o barraco para fugir do aluguel e aqui fiquei”, diz, orgulhoso, acrescentando que mora em cima de seu local de trabalho, onde passa as manhãs. De negativo, apenas a insegurança:

“Fui assaltado há alguns dias. Colocaram o revólver aqui (mostra o peito) e me machucaram”, conta, apreensivo. “Mas ele (o ladrão) não deve ser daqui. Todos na vizinhança me respeitam”.

O são-paulino tem no seu comércio a ajuda do filho Marcos, corintiano morador de Itaquera, bairro da Zona Leste onde fica o estádio do Timão. O herdeiro diz que o pai já tem os resultados de placares quase todos prontos. E acrescenta outras histórias dos dias seguintes às derrotas do time do Morumbi: “Muitos motoristas que passam por aqui aproveitam quando o São Paulo perde e fazem até fila para mexer com o meu pai. É uma gritaria e uma provocação danada”.

Para Seo Reis, o ponta-esquerda Canhoteiro foi o melhor jogador que já vestiu o manto Tricolor. “Ele driblava demais. Mas também gostava do Zizinho, do Mauro (Ramos), do De Sordi, do Poy, o argentino, um grande goleiro”.

O artesão diz que torce para o São Paulo desde garoto, mas não gosta muito de multidões. Por isso, prefere acompanhar o time no rádio e na tevê. “Fui algumas vezes ao estádio, apenas”.

Aos 81 anos, Seo Reis diz ainda trabalhar bastante. “Tem serviço. Já tive ajudantes, mas hoje somos somente eu e meu filho. Mas o comércio aqui vai bem e é todo direitinho com a Prefeitura, pago os impostos certinhos, o guarda-livros (contador)”.

Quando questionado sobre a atual fase do São Paulo, o alvo das críticas, mais do que a irregularidade da equipe e os placares “atípicos” deste começo de temporada, é o treinador e ídolo do clube, Rogério Ceni: “Tem tanta gente boa no Brasil e ele traz dois estrangeiros pra trabalhar com ele. Dá oportunidade pro pessoal daqui, poxa!”, resmunga. “E quando o Ceni jogava, era só ele, não dava chance pra ninguém”, finaliza Seo Reis, bravo.

Leonardo Guandeline

78 posts | 7 comments

Menu Title