Pete Carroll e a inclusão de atletas com deficiência

Pete Carroll e a inclusão de atletas com deficiência

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sexta-feira, 08 janeiro 2021
Futebol Americano

Já é de conhecimento geral que o futebol americano é um esporte democrático, afinal, todos podem jogar. Magros, gordos, altos e baixos possuem espaço e assim, formam uma equipe. Contudo, pessoas com deficiências tendem a ser excluídas de atuar junto com atletas considerados “normais” devido suas limitações, mas uma equipe deu fim à isso. Com o intuito de proporcionar essa inclusão, hoje você verá como o treinador Pete Carroll e o  Seattle Seahawks transformou atletas com deficiência em parte de sua história.

Por: Rafael da Costa – São Paulo, SP.

O ESPORTE DA INCLUSÃO

Antes de entender como a equipe deu chances para atletas com deficiência, é necessário conhecer a importância da modalidade neste quesito. Como resultado de uma mistura entre futebol e rugby, surge o futebol americano. Suas regras são diferentes e nos dias de hoje, uma equipe profissional pode contar com até 53 jogadores no plantel. Entretanto, por ser um esporte muito físico, pessoas com deficiências tendem a ser excluídas do meio.

Mas fato é que, devido a alta gama de posições dentro de um time, todos os tipos de pessoas estão aptas para jogar. Representando os pesados, temos como exemplo o ofensive line Mekhi Becton e seus 165kgs. Por outro lado, representando os mais leves, temos o único brasileiro da liga, o kicker Cairo Santos e seus humildes 73kgs. Na ala dos gigantes, o novato defensive line Calvin Taylor impressiona com seus 2,06m. Ao contrário, representando os baixinhos, temos o wide receiver Deonte Harris com apenas 1,67m.

O esporte aceita todo tipo de corpo e pessoa, por isso, é fácil entender como é o mais praticado nos Estados Unidos. Só para exemplificar, escolas preparam atletas desde os seus 11 anos de idade para uma carreira profissional. É a partir disso que o processo de inclusão entra. Deficiências físicas, visuais e auditivas podem receber chances de realizar o sonho como atleta, afinal, todos podem jogar. Embora nem todos os técnicos proporcionam essa inclusão, um nome especial mudou isso: Pete Carroll.

JAKE OLSON: UM CEGO NO FUTEBOL AMERICANO UNIVERSITÁRIO

Antes de assumir o comando dos Seahawks, Pete Carroll era o treinador da USC (Universidade do Sul da Califórnia). Foi lá que conheceu a história do jovem Jake Olson. Jake possui retinoblastoma desde que nasceu, um câncer que se inicia na retina e compromete o olho por completo. A doença afeta principalmente crianças e logo aos 10 meses de idade, perdeu seu olho esquerdo. Mas a pior notícia só veio mesmo aos 12 anos, quando o câncer se agravou e acabou perdendo o olho direito, ficando completamente cego.

Logo após a cirurgia para retirada do olho direito, recebeu o convite do treinador Carroll para visitar o centro de treinamento da universidade. Assim, apesar de sua deficiência visual, nunca perdeu a esperança de um dia realizar o sonho de entrar em campo. Eis que Olson se formou no ensino médio e conseguiu entrar na USC. Tudo indicava que seria mais um estudante comum no curso de administração de negócios. No entanto, uma reviravolta mudaria sua história.

Jake Olson com 12 anos e Pete Carroll

Jake Olson com 12 anos e Pete Carroll Foto: Reprodução/Twitter USC

Pete deixou a universidade para assumir os Seahawks em 2009, antes do garoto virar aluno. Mas com o apoio do treinador, Jake ficou famoso. Ganhou sua primeira oportunidade para treinar na equipe universitária na posição de long snapper em 2015. Contudo, no ano de 2017, Clay Helton, atual técnico da USC, decidiu dar uma chance ao garoto. Guiado por um companheiro para dentro de campo, protagonizou um dos momentos mais emocionantes do esporte. Se tornou oficialmente o primeiro jogador cego de futebol americano da história.

DERRICK COLEMAN: O SOM DO SILÊNCIO

Surdo desde seus três anos de idade por motivos genéticos, Derrick Coleman não tem lembranças de escutar sem aparelhos auditivos. Atuando na posição de fullback, foi peça importante na conquista do Super Bowl XLVIII. Pela primeira vez na história, um jogador com deficiência foi campeão. O atleta não foi escolhido no draft em 2012 e não recebeu chances na NFL. Contudo, ao saber de sua história, o treinador Pete Carroll não viu somente um grande atleta, mas uma inspiração de vida.

Jogar no Lumen Field, casa dos Seahawks, é um desafio no momento em que se pisa no gramado até o apito final. A torcida é uma das mais barulhentas da liga, tendo causado até um abalo sísmico na cidade durante uma partida. Entretanto, Coleman nunca ouviu o barulho dos 12.º jogadores sem seus aparelhos auditivos. Para as jogadas ofensivas, o capitão e quarterback da equipe, Russell Wilson, não só gritava a formação como de costume. Passou a fazer gestos para que o atleta surdo compreendesse exatamente o que deveria ser feito.

Derrick Coleman e Russell Wilson em campo.

Derrick Coleman e Russell Wilson em campo. Foto: Reprodução/Mark J. Rebilas/ USA TODAY Sports

Desde que venceu o título em 2013, sua história virou inspiração para diversas crianças surdas que sonham um dia estar na NFL. Coleman ganhou destaque atuando ao lado do lendário running back Marshawn Lynch. Seu papel era abrir espaços para que o companheiro corresse com a bola e a executou com perfeição. Jogou pela última vez em 2018, pelo Arizona Cardinals. De lá para cá, acabou se envolvendo em polêmicas que o levaram a encerrar sua carreira.

SHAQUEM GRIFFIN: O AMOR DE IRMÃO TRANSFORMANDO UMA VIDA

De longe o caso mais impactante, Shaquem Griffin tem uma das histórias mais emocionantes de todos os esportes. Nasceu com a rara Síndrome da Banda Amniótica, uma doença que gera má formações no feto. Tentou cortar sua própria mão esquerda quando criança pelas fortes dores que sentia. Seus pais entenderam como a má formação era dolorosa e, aos quatro anos de idade, decidiram pela amputação. Aprendeu desde pequeno que sua vida seria diferente.

Sua deficiência física nunca o impediu de lutar por aquilo que sempre sonhou. Peça importante para nunca desistir foi o apoio de seu melhor amigo: seu irmão gêmeo, Shaquill Griffin. Enquanto todos falavam que Shaquill seria um grande atleta no futuro, Shaquem era deixado de lado por “não ser normal”. Seu irmão sempre foi seu grande parceiro e os dois treinavam juntos para entrar no time da UCF (Universidade da Flórida Central).

Shaquill rapidamente tornou-se destaque na universidade atuando como cornerback, uma posição que depende muito das mãos. Porém, como o esporte é democrático, Shaquem não ficaria sem jogar. Ganhou oportunidade como outside linebacker, uma posição que tem como função principal derrubar os adversários. A maior conquista de sua carreira não foi derrubar atletas de outros times, mas sim derrubar de uma vez por todas a barreira do preconceito.

ESCOLHIDO POR PETE CARROLL PARA SER UM SEAHAWK

No ano de 2017, Shaquill fez uma boa temporada na universidade e se tornou elegível para o draft, sendo escolhido na terceira rodada pelo Seattle Seahawks. Já Shaquem, optou por ficar mais um ano e se preparar. Em 2018, o atleta com deficiência foi eleito o melhor jogador defensivo do Peach Bowl, tradicional jogo anual entre as universidades. Na preparação para o draft, bateu o recorde de velocidade da história na posição de linebacker, correndo 40 jardas em 4.33 segundos.

Escolhido na quinta rodada, recebeu uma ligação de Pete Carroll avisando que estaria ao lado do irmão mais uma vez. Shaquem se tornou o primeiro atleta com deficiência escolhido no draft e uma inspiração para muitas crianças. Ao contrário do que muitos esperavam, é peça importante no elenco da equipe nos dias de hoje. Apesar de suas limitações físicas, tem ganho cada vez mais oportunidade e foi titular em vários jogos.

Shaquill e Shaquem orando abraçados

Shaquill e Shaquem orando abraçados. Foto: Otto Greule Jr/Getty Images

É o único atleta com deficiência ativo na liga, mostrando cada vez mais a importância do trabalho de Pete Carroll. O treinador já se mostrou cada vez mais empolgado com a evolução de seu jogador. Ele garante também que dar oportunidade é o primeiro passo para construção de grandes ídolos. Para alguém que possui uma deficiência, ver que um atleta com a mesma história de vida atingiu o patamar de atleta é inspirador. Sendo o único técnico em toda a NFL que se preocupa com a inclusão, Pete Carroll com toda a certeza será lembrado na história.

Foto destaque: Reprodução/Bettina Hansen/The Seattle Times

Rafael da Costa

Estudante de Rádio e TV, apaixonado pelo esporte desde o nascimento. Ainda criança com uma câmera analógica quebrada eu ensaiava me apresentando como se fosse na TV. O jornalismo, principalmente o[...]

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