‘O Lutador’: a linha tênue entre a vitória no ringue e o ‘fracasso’ fora dele

‘O Lutador’: a linha tênue entre a vitória no ringue e o ‘fracasso’ fora dele

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sexta-feira, 21 abril 2017
Outros Esportes

Galã em filmes românticos dos anos 1980, Mickey Rourke encarna Randy “O Carneiro (The Ram)” Robinson neste “O Lutador” (The Wrestler), de Darron Aronofsky, filme de 2008 que rendeu ao primeiro o Globo de Ouro de melhor ator. Após estrondoso sucesso coincidentemente na mesma década de seu intérprete, Robinson vive, vinte anos depois, de bicos em um supermercado e de lutas livres combinadas com colegas de ringue aos fins de semana – com ginásios lotados de fãs que ainda gritam por ele e esperam ansiosamente o fatality contra os adversários, o performático “golpe do carneiro”.

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Lutador de boxe amador e profissional de carreira curta, o ator Mickey Rourke encarna no filme um astro da luta livre à beira da aposentadoria – Reprodução

 

 

E é no ringue que faz um barulho desproporcional ao impacto da queda de seus lutadores que “O Carneiro” reina, ainda que em uma suposta decadência por conta da idade e do uso de álcool, cocaína e esteróides – misturados a uma dose de tristeza e de vazio existencial – que levam o lutador a um infarto. Em dado momento do filme, quando a personagem da ótima Marisa Tomei, affair dele na película, pede que Robinson leve em consideração a recomendação médica de parar de lutar, ele emenda: “Sei o que estou fazendo. E o único lugar onde me machuco é lá fora (dos ringues). O mundo está se lixando pra mim. Está ouvindo? (comenta, com a plateia ao fundo gritando seu nome antes da entrada para mais uma luta) Aqui é o meu lugar”.

E o mundo “externo” do protagonista; apesar do carinho e do reconhecimento de fãs que vez ou outra pedem autógrafos e tiram fotos com o ídolo (O Carneiro chegou até a ser personagem de um jogo “ultrapassado” de Nintendo, no filme); é muito  mais hostil ao lutador, que na história tenta reaproximar-se da filha que abandonou na infância. É também fora dos ringues que o lutador tem de lidar com um público que não sabe o que quer do outro lado do balcão de frios de um supermercado, que sobrevive financeiramente revendendo substâncias socialmente ilícitas, que é despejado de seu trailer por não pagar o aluguel etc.

Enfim, um filme que conta uma história cotidiana, um drama comum a tantos que, ao envelhecer de uma forma bastante solitária, oriundos de uma “carreira esportiva curta”, já não sabem mais o que fazer da vida com o mesmo empenho, amor e dignidade. A película também vale muito pelas interpretações e pela câmera de Aronofsky quase que documental.

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A personagem de Marisa Tomei convence o lutador a ver a filha que ele abandonara na infância – Reprodução

Lutador amador e profissional de boxe invicto em sua curta carreira (Em 2014, aos 62 anos, após uma vitória forjada contra um adversário 33 anos mais novo que precisava de grana, o ator foi desafiado pelo boxeador brasileiro Touro Moreno, pai dos pugilistas medalhistas olímpicos Esquiva e Yamaguchi Falcão, que na ocasião, ainda em atividade, tinha 77 anos), Mickey Rourke é o mais à vontade na tela, com expressões faciais que dizem muito, apesar de seu rosto desfigurado após sucessivas cirurgias plásticas.

Marisa Tomei, que interpreta Cassidy (Pam), a parceira stripper que tem de ouvir doses cavalares de desaforos e machismo em uma boate para ganhar seu sustento e o do filho de 9 anos, completa a dupla de gigantes na tela com excelência, beleza e a sensualidade de sempre. É a personagem dela que, ainda que com a mesma crise existencial do parceiro (dadas as proporções), tenta dar um pouco mais de sentido e encanto à vida do lutador.

Leonardo Guandeline

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