O filme que conta a rivalidade e a humanidade de Niki Lauda e James Hunt

O filme que conta a rivalidade e a humanidade de Niki Lauda e James Hunt

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sexta-feira, 31 março 2017
Automobilismo

“Sempre pensam em nós como rivais…mas ele era um dos muito poucos de quem eu gostava. E um dos pouquíssimos que eu respeitava. Ele continua sendo a única pessoa que eu invejei” (Niki Lauda, sobre James Hunt)

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Lauda, coberto de louros, e Hunt, com a mão na boca, rivalizaram na Fórmula 1 principalmente nos campeonatos de 1975 (vencido pelo austríaco) e 1976 (conquistado pelo inglês) – Foto: The Cahier Archive

“Rush”, dirigido por Ron Howard (“Frost/Nixon”, “Uma Mente Brilhante”), vai além de um filme sobre dois pilotos rivais na Fórmula 1. A película, de 2013, desnuda Niki Lauda (interpretado brilhantemente por Daniel Brühl) e James Hunt (vivido pelo não tão menos talentoso Cris Hemsworth) através de memórias do primeiro, hoje diretor da equipe Mercedes – o último morreu em 1993, aos 45 anos, vítima de um ataque cardíaco. Antes de lendas e homens que por várias vezes desafiaram a morte (há um momento no filme em que o personagem de Hunt fala: “Não é para isso que corremos, afinal? Encarar a morte de frente e enganá-la?”), ambos são seres humanos decididos e determinados, cada um ao seu estilo.

Lauda é sujeito calculista, pragmático, exímio mecânico, projetor etc. De família abastada, ouve do pai que deveria ocupar as manchetes dos jornais junto a políticos e economistas, e não como piloto de carros. Destemido e contrariando os conselhos paternos, toma empréstimo no banco e leva a grana para uma equipe de Fórmula 1, a BRM, no início dos anos 1970, para ser o piloto titular. Exige o mesmo contrato dado ao suíço Clay Regazzoni, cujo carro fica mais veloz após a chegada do austríaco à escuderia, preferido da BRM até então.

Já o inglês James Hunt, na mesma época, vivia cada dia da vida como se fosse morrer no seguinte. Bebia, fumava, transava com praticamente todas as mulheres que cruzavam seu caminho, mas nada disso parecia abalar seu desempenho como piloto – talvez fosse mais audacioso nas pistas que o rival, mais cauteloso. Conheceu Lauda em 1970, na Fórmula 3 (quando corria numa escuderia de “almofadinhas” ingleses), e, desde então, teve com o rival uma relação de amor e ódio que durou pelo menos até 1976 na Fórmula 1, último ano em que Hunt teve um carro competitivo.

E é em 1976 que se passa a maior parte do filme. Foi esse o ano em que Niki Lauda ficou preso por quase um minuto ao cinto de segurança de sua Ferrari, após um possível problema na suspensão, enquanto o carro virava uma bola de fogo e queimava sua pele e seus pulmões – ele perdera o capacete na batida contra o guard rail de uma das curvas do circuito de Nurburgring, na Alemanha). Determinado a viver após receber a extrema unção de um padre, irado e não suportando ver Hunt (correndo pela McLaren, na vaga deixada por Emerson Fittipaldi, que foi para a “sua” Copersucar) “tirar seus pontos” (o austríaco liderava o campeonato daquele ano e estava bem à frente do rival na classificação geral antes do acidente) enquanto lutava contra todos os piores prognósticos na cama de um hospital, Lauda voltou a correr menos de dois meses após o trauma, para não entregar o título de bandeja ao inglês.

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McLaren, com Hunt, e Ferrari, com Lauda, eram as grandes rivais em 1976 – Foto: The Cahier Archive

Ao fim do filme, quando os dois já haviam sido campeões na Fórmula 1, Lauda – que desde então dirigia também aviões – fala a Hunt, ao lembrar do que o médico dizia a ele quando, irritado ao ver Hunt triunfar na tevê do quarto de hospital, alimentava seu ódio pelo rival: “Pare de achar que ter um inimigo na vida é uma maldição. Pode ser uma bênção também. Um sábio recebe mais dos inimigos do que um tolo dos amigos”.

A película – que, além das atuações de ambos os atores protagonistas, também faz bonito no roteiro (Peter Morgan, de “Frost/Nixon”), edição de som, montagem, câmera “granulada”, nos closes de dentro dos carros (com combustões e outras reações mecânicas e químicas) e expressões faciais dos atores/pilotos que “dizem” tudo – termina com Lauda fazendo um apelo não atendido por Hunt nesta existência: “Não me deixe na mão. Preciso de você me desafiando”.

*crédito da imagem destacada: The Cahier Archive

Leonardo Guandeline

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