O ‘Fabuloso Fittipaldi’, constelação do Cinema e o azulejo da piscina enterrada

O ‘Fabuloso Fittipaldi’, constelação do Cinema e o azulejo da piscina enterrada

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sexta-feira, 19 maio 2017
Automobilismo

Uma história contada em alguns almoços de família dizia que no jardim da casa dos meus avós há enterrada uma piscina feita com azulejos que traziam estampados o rosto do Emerson Fittipaldi. Um dia, por curiosidade, resolvi procurar o tal azulejo na internet e encontrei pessoas comercializando as peças, “raríssimas”, segundo os anúncios, acima de R$ 30, a unidade.

O azulejo com o rosto do primeiro campeão brasileiro de Fórmula 1 – Reprodução de internet

Mais insólito ainda é encontrar na rede mundial de computadores o documentário completo “O Fabuloso Fittipaldi”, de 1973, filme-propaganda sobre o primeiro campeão brasileiro de Fórmula 1 – Emerson ganhara o mundial da categoria no ano anterior. O que se acha são pequenos trechos em vídeo dessa pérola, filmado por ninguém menos do que Roberto Farias (diretor de “O Assalto ao Trem Pagador” e da trilogia dos filmes do Roberto Carlos no fim da década de 1960 e início da de 1970), Jorge Bodansky (“Iracema, uma Transa Amazônica) e Hector Babenco (“Pixote”, “O Beijo da Mulher-Aranha” e “Carandiru”).

Os créditos são um pouco confusos e, pelo pesquisado, foram alterados ao longo dos anos. Os do início do documentário diziam que Farias o dirigiu, roteirizou (junto de Babenco, que assina a supervisão), editou e era uma das câmeras (ao lado de Bodansky, também um dos responsáveis pela fotografia). O IMDB, maior base de dados do Cinema na internet, no entanto, credita a direção a Farias e Babenco (que também aparece no portal como produtor executivo).

Pôster do documentário de Roberto Farias e Hector Babenco – Reprodução

A esses três gigantes do Cinema soma-se o músico Marcos Valle – responsável pela trilha sonora inspirada no blaxploitation, o cinema negro estadunidense, e autor da canção “Flamengo até morrer”, uma crítica ao regime militar e à alienação causada pelo futebol brasileiro no início dos anos 1970 – e o ator Jorge Dória, que faz a narração.

O documentário, pelos fragmentos assistidos, traz, em meio a uma saraivada de propaganda de cigarros e produtos para automóveis, um Emerson Fittipaldi bastante arrojado nas pistas. Em uma das partes, ele chega de helicóptero (da Rádio e TV Bandeirantes) a Interlagos, elogia bastante o circuito e depois entra em um Maverick V8 branco, desejo de consumo à época apresentado ao público no Salão do Automóvel do ano anterior, 1972.

Ao volante do “Mavecão”, Emerson acelera fundo, canta e queima pneus o tempo todo e parece que sairá nas curvas pela tangente (o trecho do filme pode ser conferido aqui). Mas não. Tem pleno domínio da pista e do automóvel. Num determinado momento do filme, narrando o traçado antigo do circuito paulistano em meio a toda aquela adrenalina, emenda, com bom humor: “A curva do laranja chama do laranja porque só laranja que tira o pé nessa curva”.

O documentário foi lançado no Brasil apenas em VHS, em 1986. Em uma crítica feita por Mário Sérgio Della Rina, na edição de “Placar” de 25 de agosto daquele ano, o autor lamenta o fato do filme ter sido feito muito cedo, antes mesmo do bicampeonato de Emerson (1974), e a ausência de legendas no depoimento de pilotos estrangeiros, entre eles Jackie Stewart e François Cevert.  Mas elogia o protagonista por estar à vontade no documentário e narrar com simplicidade sua história no automobilismo até então.

*crédito da imagem em destaque: Reprodução de internet/SpeedMerchants

Leonardo Guandeline

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