Em exclusiva, Mortari conta a receita para o sucesso: “O segredo é amar a equipe”

Em exclusiva, Mortari conta a receita para o sucesso: “O segredo é amar a equipe”

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sábado, 27 junho 2020
Basquete

Quem é Claudio Mortari? Imaginei mil e uma maneiras para descrevê-lo, mas preferi utilizar as palavras de alguém que, além de ser uma referência no basquete, conhece infinitamente mais sobre o Mortari do que eu.

“Esse cara é osso duro de roer, perseverante. Esse cara ganha onde quer que ele vá […] foi com esse cara que eu ganhei a maioria dos campeonatos no Brasil” – afirmou Oscar Schmidt, durante a cerimônia do Hall da Fama do Basquetebol em 2013. 

Por: Luciano Massi, Santo André-SP

Claudio Mortari foi vitorioso desde a sua primeira experiência como treinador, que ocorreu acidentalmente. Com apenas 22 anos de idade, o então jogador do Palmeiras e estudante do EE Zuleika de Barros treinou o time da escola na final do campeonato colegial a pedido dos integrantes da equipe. Todo vencedor tem sorte e com Mortari este chavão não se altera.

mortari no palmeiras

Mortari enquanto jogador do Palmeiras (Acervo/ Gazeta Esportiva)

Mesmo sem experiência comandou a vitória contra o Mackenzie, garantindo o caneco do torneio. O desempenho do jovem treinador chamou a atenção de dirigentes alviverdes, que ali estavam acompanhando o jogo. Posteriormente, Claudio recebeu o convite para treinar na escolhinha do Palmeiras. Deixou as quadras em 1973, aos 25 anos, para ficar à beira delas.

O DONO DO MUNDO

Ainda no Verdão, Mortari conquistou o Brasileiro de 1977. Partiu rumo ao Esporte Clube Sírio e ganhou os títulos Paulistas (1978 e 1979) e dois Brasileiros (1978 e 1979). O último troféu garantiu a presença alvirrubra no Campeonato Mundial de Clubes Campeões, onde a equipe do Sírio venceu times da Itália, Porto Rico e dos Estados Unidos. Na decisão, Oscar Schimdt, Eduardo Agra, Marquinhos, Marcel e companhia não se intimidaram com os iugoslavos do Bosna Sarajevo e triunfaram pelo placar de 100 x 98. Provocando um verdadeiro carnaval dentro do Ginásio do Ibirapuera.

Elenco do Sírio campeão Mundial 1979

Elenco do Sírio campeão mundial em 1979 (Site oficial E.C. Sírio)

O título alavancou a carreira do treinador que, logo no ano seguinte, 1980, comandou a Seleção Brasileira nas Olimpíadas de Moscou. Dessa forma, mesmo com grande parte dos campeões mundiais pelo Sírio, o Brasil não alcançou o pódio olímpico. Porém, o selecionado garantiu um honroso 5º lugar. A partir daí, Mortari deixou a seleção e focou no basquetebol de clubes.

PENTACAMPEÃO BRASILEIRO

Rodou o território tupiniquim difundindo as suas táticas ofensivas. Utilizando mais uma vez as palavras de Oscar Schimdt: “Esse cara ganha onde quer que ele vá”. Prova disso foi o tricampeonato brasileiro conquistado com o Sírio em 1983. Claudio passou por Bradesco-RJ, Corinthians, Pirelli/Santo André-SP, Telesp-SP, Rio Claro-SP, Mogi-SP, Mackenzie-SP e em 1999 decidiu novamente desbravar a Cidade Maravilhosa. Entretanto, quatro  temporadas antes de comandar  Flamengo, Vasco e Campos, o então tetracampeão tornou-se pentacampeão brasileiro junto ao Rio Claro.

Hélio Rubens e Claudio Mortari

Hélio Rubens (Vasco) e Claudio Mortari (Flamengo) protagonizaram grandes duelos nos ginásios cariocas (Reprodução)

Depois da passagem pelo Rio de Janeiro, Mortari retornou à capital paulista, dessa vez para assumir a direção técnica do Paulistano. Além disso, também treinou o Ulbra/São Bernardo e o Esporte Clube Pinheiros. Na equipe do Henrique Villaboim, o “dono do mundo” em 1979 mostrou-se versátil e atualizado. Afinal, colocou mais um troféu em sua galeria: a Liga das Américas de 2013.

“Não existe estratégia para me manter (em alto nível). Existe confiança de quem me contrata, e o segredo é amar a equipe em que trabalho” – contou Claudio sobre permanecer na primeira prateleira do basquete por décadas a fio. 

PROJETO TRICOLOR 

51 anos consecutivos doando a sua vida em prol do basquete, Mortari é o único técnico a atingir essa marca em todas as modalidades do esporte brasileiro. Todavia, a vontade de vencer continuou insaciável e no final de 2018 aceitou a proposta do São Paulo para comandar o projeto tricolor. Além de Claudio Mortari, outro grande nome da bola laranja também desembarcou no Morumbi: Ênio Vecchi, ex-treinador das seleções masculina e feminina.

“O Ênio, pela sua trajetória em varias equipes e seleções brasileiras, enquadrava-se totalmente ao que pretendíamos e fez um trabalho de assistência excelente. Lembrando que o Ênio foi meu atleta nas categorias de base. Nos conhecemos a muito tempo e tínhamos certeza na indicação de seu nome. Grande trabalho como realizou em outros clubes que contaram com seu profissionalismo” – salientou Mortari sobre a escolha de Ênio para integrar a sua comissão técnica. 

Ênio e Mortari

Ênio Vecchi e Mortari conversando com o elenco (Divulgação/ FPB)

LIGA OURO, PAULISTA E NBB

A vasta experiência de Claudio e Ênio culminou no vice-campeonato da Liga Ouro em 2019. Entretanto, a vaga no NBB foi garantida pela compra da franquia do Joinville. Porém, antes de disputar a elite, o São Paulo realizou uma reformulação no elenco que ascendeu da segunda divisão. Apenas Dalen Jones, Danilo Penteado e Igor Araújo permaneceram.

Em contrapartida, a diretoria providenciou um pacotão de reforços. Dentre os principais jogadores adquiridos estavam: Shamell, Georginho, Jefferson William, Léo Meindl, Renan Lenz e Desmond Holloway. Sem dúvida, as contratações se encaixaram muito bem na estratégia do treinador.

O São Paulo não apenas alcançou as semis do Campeonato Paulista, como também realizou uma excelente campanha no NBB 12. A chave do carro tricolor foi entregue à Georginho, que fez uma temporada digna de MVP. Só para ilustrar, nos 26 jogos disputados foram 20 vitórias e apenas seis derrotas. Terminando a fase de classificação na 3ª colocação com incríveis 76.9% de aproveitamento.

“Acredito que tivemos um desempenho espetacular. Lembrando que participamos pela primeira vez do NBB. Um terceiro lugar, atrás de Flamengo e Franca, demonstra exatamente como foi nossa performance. Vencemos o Flamengo e fizemos contra Franca duas partidas com uma vitória (em Franca) e uma derrota no Morumbi. Tivemos ainda a participação do Georginho como o grande destaque da competição e Shamell como segundo cestinha suplantado apenas por Leandrinho. Vale destacar ainda, a presença do torcedor que abraçou a iniciativa adotando a equipe com muito carinho e participação” – ressaltou Mortari, sobre o desempenho são-paulino.

Georginho SPFC

Georginho em ação com a regata tricolor (Reprodução)

OS MORTARIS

Ninguém faz a melhor análise de um time do que o seu próprio treinador. Aliás, treinador e comissão técnica. Basta desviar os olhares em direção ao banco de reservas. Na temporada 2019/2020 lá estavam os Mortaris e Ênio Vecchi passando orientações aos jogadores. Sim, Mortaris no plural porque Bruno Mortari, filho mais novo de Claudio, também conduziu e auxiliou a equipe.

“O Bruno já havia iniciado um trabalho no Pinheiros, que o levou inclusive a acompanhar George e Lucas Dias nos Estados Unidos, quando da tentativa dos dois na NBA. Pôde acompanhar todo o trabalho de vários atletas das categorias de base do Pinheiros. Sendo o responsável por um programa de desenvolvimento desses jovens em trabalho especifico e de desenvolvimento. Compõe muito bem a CT (Comissão Técnica), tendo a responsabilidade de análise de nossa equipe e adversários editando jogos para repassar a todos.”

Antes de trabalhar junto ao pai fora das quadras, Bruno foi atleta de Claudio quando vestiu a regata do Pinheiros por seis temporadas (2008/09 – 2013/14). Por lá, ainda treinou os garotos do Jardim Europa na Liga de Desenvolvimento (LDB). Portanto a experiência nas categorias de base, somada a vivência no NBB, pode ser o pontapé inicial para a carreira de técnico.

“Ele trabalhou na LDB e vejo nele condições de se firmar com muita competência. Como atleta sempre foi muito observador demonstrando interesse no desenvolvimento do jogo e de equipe.”

Bruno e Claudio Mortari

Bruno e Claudio Mortari durante a Liga Ouro de 2019 (Divulgação/ São Paulo Futebol Clube) 

SUPORTE DA DIRETORIA

Ademais, o comandante destacou a importância do respaldo oferecido pela diretoria tricolor. Tal qual providenciou um elenco de peso e uma estrutura ideal para a realização do trabalho.

“Acho que o resultado foi a soma dos esforços da diretoria através de nosso presidente que acreditou e incentivou o projeto desde o primeiro momento, nos dotando de todas as condições necessárias para que pudéssemos desenvolver todo o trabalho. Levado pelas mãos do Rossi, o projeto seguiu com apoio de outros dirigentes que sempre estiveram de nosso lado (Belmonte , João Salgueiro e Mauricio). Formamos uma CT de muita competência o que reforçou nosso trabalho de equipe. Junta-se a tudo isso ao acerto em contratações dos atletas que desenvolveram durante toda a temporada um trabalho árduo e de sucesso.”

Por fim, Claudio Mortari comentou sobre os impactos da pandemia do novo coronavírus na preparação do São Paulo, para a temporada 2020/2021.

“Estamos no aguardo da definição, datas e condições, para a disputa do Campeonato Paulista. Em função do problema que todas as modalidades esportivas do Brasil sofrem nesse momento. Assim que tivermos uma posição definida traçaremos todo o esquema de trabalho para essa nova  temporada que se aproxima. Por enquanto em compasso de espera.”

Foto destaque: Montagem

Luciano Massi

Luciano Massi

Paulistano de 21 anos, estudante de jornalismo, amante do futebol e do esporte da bola laranja.

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