“Menina de Ouro”: determinação, superação, boxe e combate ao machismo

“Menina de Ouro”: determinação, superação, boxe e combate ao machismo

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sexta-feira, 10 março 2017
Boxe

Nesta mês, milhares de mulheres ao redor do mundo realizam atos em alusão ao 8 de março, “Dia Internacional da Mulher”, data que tem sido, ao longo das últimas décadas, mais uma de luta feminina, principalmente pelo fim da desigualdade e da violência contra elas (doméstica, os vários tipos de assédio, o desequilíbrio salarial no mercado de trabalho etc.). Este autor, todavia, acredita que o dia das mulheres são todos os dias do ano e que deve, sim, haver luta, tanto delas quanto dos homens, para acabar com machismo, violência, preconceitos e o modelo de sociedade patriarcal, o que talvez seja o primeiro passo para a plena igualdade entre os gêneros. A data também serve para os homens refletirem sobre suas palavras e atitudes. Conheço muitos que dão flores e fazem declarações de amor virtuais nas redes sociais no dia 8 de março e cinco minutos depois já estão na rodinha de colegas contando a última piada da loura, falando da esposa do corno e xingando a mãe do desafeto.

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Swank e Eastwood, aguardando uma das lutas que a personagem da primeira disputará ao longo do filme – Reprodução de imagem

Isto posto, a peça cultural relacionada ao esporte a ser abordada nestas linhas é o filme “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby), estrelado por Hilary Swank, Clint Eastwood (também o diretor da película) e Morgan Freeman. O longa-metragem, de 2004, foi ganhador de estatuetas do Oscar de melhor filme, diretor, atriz (a excelente Hilary Swank, o segundo dela, novamente interpretando uma personagem, digamos, “masculinizada” – Em “Meninos não Choram”, a atriz fez um homem trans vítima de preconceito e violência em uma cidade americana) e ator coadjuvante (Freeman).

A personagem de Hilary Swank (Maggie Fitzgerald, lutadora de boxe), em certa altura do filme, conta ao de Eastwood (Frankie Dunn, um treinador da modalidade especializado em curativos de pugilistas que administra uma academia) que lutou para vir ao mundo (pesava 1,3 kg ao nascer) e lutará para sair dele (no filme, os espectadores acompanharão todas as batalhas). Ouvindo piadas de colegas homens e vítima de machismo e preconceito, principalmente o de Dunn, no início da película Maggie aparece no galpão do último pedindo que ele seja o seu treinador. Já considerada velha para o esporte (tem 31 anos), ela ouve do treinador que seria impossível disputar uma luta antes de cinco anos (período que ele considera ideal para preparar uma atleta profissionalmente) e que seria melhor desistir. Diz ainda que não treina mulheres, que ela não leva jeito para socar o saco de boxe, que não mexe as pernas etc.

Lutadora na vida e na profissão, Maggie insiste – é muito teimosa, como Frankie faz questão de lembrar, no fim do filme, sem olhar que é tão cabeçudo quanto – até conseguir convencer o turrão personagem de Eastwood (marca característica do ator, mesmo tendo espasmos de lirismo e sensibilidade como diretor, principalmente na década de 2000, com “Sobre Meninos e Lobos”, “Cartas de Iwo Jima” e “Gran Torino”) a treiná-la, com ajuda do bonachão Eddie “Scrap-Iron” Dupris, personagem de Freeman, ex-pugilista e atual zelador da academia, além de narrador da história.

Mais do que um filme sobre boxe, “Menina de Ouro” fala de dramas familiares, relação de mestre-discípulo e, principalmente, sobre como derrubar, com força de vontade, machismos e preconceitos. Atormentado por uma espécie de culpa cristã, Dunn vai às missas todos os domingos tentando talvez salvar a alma que algum dia foi errada (aos olhos do padre, que dá esporros nele o tempo todo). Ele escreve cartas para filha que não vê há anos, mas as missivas sempre retornam. Teimoso e durão, não move uma palha para tentar aproximação. Prefere “adotar” Maggie, principalmente depois que ela conta histórias sobre o pai morto e diz o quanto sente a sua falta.

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Boxeadora supera machismo, preconceitos e esteriótipos impostos socialmente – Reprodução de imagem

O amor dele, frio e turrão, contrasta com a alegria da pupila ao comemorar as vitórias nos ringues do mundo e da vida. Não que não fique feliz, pelo contrário, mas o corpo e o rosto não exalam esses sentimentos (há sorrisos amarelos em meio a broncas por ela nocautear as adversárias sempre nos segundos iniciais do primeiro round), exceto em algumas poucas vezes, em outras situações.

Eastwood quase sempre foi durão como ator, desde “O Homem Sem Nome”, passando por “Dirty” Harry Callahan e finalizando no personagem Walter Kowalski, de “Gran Torino”, sua última grande interpretação. Mas, ao contrário dos dois primeiros, machões alfa, o último é, como Dunn, um sujeito já no fim da vida que tem seu coração amolecido aos poucos após outros personagens entrarem em sua rotina.

Em “Menina de Ouro”, o gelo é quebrado pela convivência mestre-discípulo dos personagens de Eastwood e Hilary Swank (no início, o primeiro diz que só a treinaria se não fosse questionado e que tudo seria do jeito dele, sem que ela possa decidir ou emitir opiniões) e adoçado com gosto de torta de limão. “Mo Cuishle” (apelido dado por Dunn a Maggie) chega a tomar duas decisões consideradas cruciais no filme, após o frio treinador ceder e deixar seu jeito de “ouça-e-faça-tudo-o-que-este-dono-da-verdade-diz” um pouco de lado.

Como a arte imita a vida, e vice-versa, temos no filme o machismo e o preconceito contra a mulher pugilista das próprias mulheres e da maioria da sociedade. Em certa altura, a mãe de Maggie diz: “As pessoas ouvem o que você faz. E riem disso”, como se o boxe fosse esporte restrito aos homens. Enfim, um filme para refletir, principalmente sobre o machismo nosso de cada dia e como lutar contra ele.

Leonardo Guandeline

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