“Foxcatcher”: frustração, obsessão pela vitória e loucura

“Foxcatcher”: frustração, obsessão pela vitória e loucura

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sexta-feira, 10 fevereiro 2017
Outros Esportes

Hollywood costuma retratar esportes em filmes como exemplos de superação humana (e, algumas vezes, cívica). Na maioria dos casos, o protagonista é bastante determinado e focado, que sobrepuja as adversidades da vida e da modalidade escolhida para, então, após um certo tempo, vencer. O triunfo é uma fixação, muitas vezes doentia, mas o equilíbrio emocional uma hora é atingido em prol da vitória não só pessoal, mas – em boa parte das obras – de todo um país, no caso, os Estados Unidos.

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Steve Carell interpreta John du Pont; Channing Tatum vive o campeão olímpico de wrestling Mark Schultz – Divulgação

Baseado em fatos reais, “Foxcatcher”, dirigido por Bennett Miller, tem em um de seus protagonistas – John du Pont, vivido brilhantemente por um irreconhecível Steve Carell – a antítese desse modelo. No filme, mesmo não sendo o esportista, e sim o treinador, ele simboliza principalmente o fracasso humano. Talvez os outros dois protagonistas, os irmãos lutadores Mark e Dave Schultz, representados, respectivamente, por Channing Tatum e Mark Ruffalo, também sejam o oposto do personagem-esportista-símbolo-de-Hollywood. Consagrados medalhistas, ambos declinam ladeira abaixo após terem seus destinos cruzados com o de Du Pont.

O personagem de Carell é herdeiro de uma família abastada que construiu um império a partir da Guerra Civil, como fornecedora de armas, primeiramente, e posteriormente como indústria química. Bipolar, o personagem tem relações estreitas com autoridades americanas – policiais e militares, por exemplo, saem de seu escritório após encontros às portas fechadas, entregam a ele tanques de guerra encomendados e treinam tiro em sua fazenda, que dá nome ao filme – ao mesmo tempo em que critica o governo por não incentivar atletas e o esporte que ama e tem frustração por talvez tê-lo exercido somente de forma amadora: luta greco-romana ou wrestling. A modalidade é considerada inferior pela mãe de John, que prefere esportes a cavalo. E isso, além de não aceito pelo filho, mexe com seu brio.

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A relação dos irmãos Schultz (à direita, Mark Ruffalo interpreta Dave) provoca ciúmes e ira no mecenas Du Pont – Divulgação

Na condição de mecenas da modalidade e treinador, John du Pont almeja montar um time campeão de luta greco-romana, com objetivo de muitas medalhas douradas tanto no mundial da modalidade, disputado na França, em 1987, quanto nas Olimpíadas de 1988, em Seul. Para isso, chama os irmãos Schultz, medalhistas de ouro nos Jogos anteriores, em Los Angeles, e outros atletas para treiná-los, hospedá-los e ainda pagá-los bem.

O filme, que volta a 1987/88, começa com Mark Schultz dando uma palestra a alunos de uma escola. Mesmo vitorioso, o “herói” olímpico recebe apenas 20 dólares pela apresentação (o que, mesmo com juros e correção, não parecia ser muito à época). Treina com o irmão em uma academia bastante simples, aparentemente sem nenhum apoio estatal. Os cartolas do wrestling que aparecem na película são vistos com desconfiança por ele, que decide abraçar a oportunidade e aceitar o confinamento em Foxcatcher proposto por Du Pont. O irmão, Dave, por conta da família e de compromissos locais, ainda reluta, mas depois aceita o convite, convencido pelo mecenas.

Talvez o aspecto mais interessante de “Foxcatcher” é que os Estados Unidos, superpotência olímpica, no filme é tratado pelo personagem de Carell como um país que não valoriza os seus heróis. De cara, cai todo um mito, pois Du Pont enaltece os russos (ainda vivíamos a Guerra Fria naqueles tempos) por darem a devida atenção aos seus esportistas. “Quero que você vença. É por isso que está aqui (na fazenda Foxcatcher)”, diz ele, certa feita a Mark Schultz. Alternando momentos de descontração com a equipe com explosões de ciúmes e cólera, Du Pont é o sujeito que não aceita outro resultado que não vencer. E também não quer ser coadjuvante na preparação de Mark – com quem, depois de afagos, uso de cocaína e bebidas alcoólicas, tem um desentendimento – em detrimento ao irmão, Dave. Seu fracasso doentio fica cada vez mais claro no desenrolar da trama, até que o personagem chega ao seu limite. No fim do filme, a superação de Mark – único que pode ser considerado vitorioso, se é que isso é possível – vem de uma outra forma.

Leonardo Guandeline

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