Fórmula 1, Suécia, Slim Borgudd: Das baterias para esperança sueca do automobilismo

Fórmula 1, Suécia, Slim Borgudd: Das baterias para esperança sueca do automobilismo

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sexta-feira, 25 agosto 2017
Automobilismo

Prólogo

Falar de Slim Borgudd sem um prólogo não faz jus ao brilho de sua atuação no automobilismo. É importante dizer que enquanto Itália, França, Inglaterra e até mesmo o Brasil sempre tiveram inúmeros representantes na categoria máxima do automobilismo mundial, a Suécia até hoje teve apenas nove corajosos desbravadores. E se levarmos em conta que três deles ganharam corridas, ou seja, um terço dos pilotos conquistaram vitórias, aí é que percebemos o quanto a Suécia criou grandes automobilistas. Jo Bonnier foi o pioneiro, entrando na categoria ainda na década de 50 e correndo até 1971 enquanto dividia sua carreira entre a Fórmula 1 e os protótipos. Infelizmente na edição de 1972 das 24h de Le Mans, Bonnier se envolveu num trágico acidente que tirou a sua vida, não tendo assim a chance de ver uma prova de Fórmula 1 em seu país. A bem da verdade é que na década de 70, o grande piloto da Suécia na Fórmula 1 já era Ronnie Peterson. Quando Ronnie estreou na categoria em 1970, a única vitória de Bonnier já tinha 11 anos de idade. Conquistada em 1959 na Holanda, o feito de Bonnier já fazia parte do passado junto com o auge do piloto, que passava o bastão aos jovens Peterson e Reine Wisell.

E nessa história, existe algo interessante: Wisell e Peterson estrearam na categoria na mesma temporada de 1970, mas em corridas e circunstâncias diferentes. Peterson começou no Grande Prêmio de Mônaco e correu a temporada inteira a bordo de um March que o impossibilitou de conquistar pontos. Já Wisell foi promovido a titular da poderosa Lotus em sua estreia na categoria. Após Jochen Rindt perder a vida no fim de semana do GP da Itália em Monza, a Lotus ficou sem seu principal piloto e também sem o britânico John Miles, que não quis terminar a temporada após a tragédia. Emerson Fittipaldi assumiu o posto de principal piloto e assegurou o título póstumo de Rindt após grandes atuações, mas o que poucos registram é que Wisell logo em sua primeira corrida em Watkins Glen como o segundo piloto da escuderia obteve o terceiro lugar subindo ao pódio e superando por muito a temporada de Miles e também do compatriota Peterson, além de chegar a frente do concorrente de Rindt, ninguém menos que Jacky Ickx. Tirando pontos de Ickx, Wisell, assim como Fittipaldi, também participou do feito de Rindt. Ninguém imaginaria naquele momento que Peterson teria uma carreira bem mais relevante que Wisell.

Em 1971, Wisell e Peterson eram vistos com bons olhos pelos suecos, que ainda tiveram Bonnier em sua última temporada. Porém quem se sobressaiu dessa vez foi Peterson. Enquanto Jackie Stewart aniquilava seus concorrentes e Wisell conquistava apenas alguns pontos com a Lotus, Peterson em temporada extremamente consistente conquistou cinco segundos lugares e mais um punhado de pontos chegando quase sempre entre os seis primeiros. Com as boas atuações, Peterson a bordo da March foi o piloto sueco que chegou mais perto do título já em sua segunda temporada, sendo superado apenas por Stewart que sobrou naquele ano. E com os bons resultados da Suécia na categoria, o incentivo surgiu para que fosse organizada uma prova caseira pelos nórdicos. O ano era 1973. Bonnier não estava mais entre nós para acompanhar a prova, mas lá estavam Ronnie Peterson e Reine Wisell. Com eles durante os anos, alguns pilotos do país foram surgindo esporadicamente para o GP. Aos poucos Wisell foi deixando a categoria até largar de vez em 1974, correndo pela última vez no GP da Suécia daquele ano. Peterson seguiu firme, trazendo com ele nomes como Bertil Roos e Torsten Palm além de Gunnar Nilsson, grande destaque sueco daqueles tempos além de Ronnie. Neste período os melhores resultados foram um segundo e um terceiro lugar de Peterson em Anderstorp, nos anos de 73 e 78, respectivamente.

Mas o destino infelizmente pregou uma peça triste nos suecos. A Fórmula 1, que parecia tão promissora aos nórdicos assistiu em 1978 a partida de dois ídolos locais. Naquele ano, só Ronnie Peterson pilotava, pela Lotus. Gunnar Nilsson que havia se destacado pela mesma equipe em 1976 e 77, descobriu um câncer que o tirou das competições em 1978. Peterson então sofreu o acidente num desastrado procedimento de largada em Monza que desencadeou os fatores que o levaram a morte em 11 de setembro daquele ano, um dia após o acidente. Gunnar Nilsson, com câncer em estágio já avançado esteve presente no funeral do amigo. Era a despedida do piloto, que pouco mais de um mês depois também não resistiu e faleceu, deixando orfãos os fãs suecos de corridas. O GP da Suécia não foi renovado para 1979. Sem grandes representantes, não havia clima para corrida alguma na Suécia.

 

Enquanto isso…

Slim Borgudd e seu “Funky Formula”. Foto: formula.hu

Enquanto isso Karl Edward Tommy Borgudd, para os íntimos apenas “Slim”, tocava bateria. E não faltaram bandas para que Slim colocasse seu nome nos registros, como a ‘Made in Sweden’. Mas o ponto alto como músico de jazz foi na banda mundialmente conhecida ABBA, onde tocou para o quarteto Anni-Frid, Agnetha, Benny e Björn (este último é importante na história). Bem sucedido, chegou a gravar um disco intitulado “Funky Formula” em 1976, numa clara referência ao automobilismo, sendo utilizado nas músicas roncos de motores por exemplo. Ficava claro que a grande paixão de Slim era a velocidade. Pudera, afinal desde a década de 60 o piloto-baterista já se aventurava em corridas de Fórmula Ford. Entre 1972 e 1975, Borgudd competiu na Stock Car sueca, sendo vice-campeão em uma ocasião, além de ser campeão escandinavo de Fórmula Ford em 1973.

Em 1976 Slim tocava e corria cada vez mais, agora na Fórmula 3. O piloto chegou a montar até equipe própria no fim da década e se sagrar campeão da série sueca em 1979. Um pouco sem clima após as mortes de Peterson e Nilsson, é verdade. Mas era um dos pilotos em evidência do país naquele momento. Apesar disso a carreira de Borgudd era incerta naquele momento. Sem vaga na Fórmula 2, Slim corria esporadicamente em provas da Fórmula 3. Slim Borgudd já tinha alguns títulos no bolso, 34 anos, experiência, boa pilotagem mas faltava-lhe dinheiro para algum patrocinador gordo realizar seu sonho de correr na F1. Havia um homem de negócios na Suécia chamado Tommy Lindh, que bancou uma ajuda ao piloto para que este angariasse algum patrocinador, e a lei da Fórmula 1 na época era chamar alguma marca de cigarros para tal. O alvo era a ATS, equipe alemã do circo. A Camel quase fechou, mas talvez percebendo que associar seu nome a um carro no máximo apenas mediano (e mediano em apenas algumas pistas, era daí pra baixo) não era o mais interessante. Tommy, Slim, ABBA e a Escandinávia ficou a ver navios no Báltico.

Slim e seu “ABBA car” amarelo da ATS. Foto: Sphera_Sports

Após o ocorrido o grande amigo de Slim, Björn Ulvaeus, membro do ABBA se sensibilizou com o que estava acontecendo e propôs a equipe alemã Auto Technisches Spezialzubehör, ou ATS para os íntimos, algum tipo de ajuda. O acordo era que o ABBA não oferecesse dinheiro, mas que a ATS utilizasse o nome da banda comercialmente para conquistar mídia e patrocinadores. Se funcionou ou não, não vem ao caso. Mas o fato é que Borgudd enfim tinha uma vaga para correr em 1981. E a parceria começou bem. Graças a ela, Borgudd estava na equipe após um hiato dolorido de pilotos para a Suécia, e o baterista não fez feio. Já na primeira corrida, o GP de San Marino, enquanto o bom Jan Lammers não conseguia classificar seu carro para o grid, Slim correu e completou a prova. Visto o que aconteceu, Lammers que tinha começado a temporada como piloto único pela equipe foi preterido e a ATS ficou apenas com Borgudd. A equipe teve dois carros apenas em San Marino, e para a equipe foi o suficiente ver o desempenho superior de Slim sobre Lammers. The winner takes it all, já diziam as moças do ABBA.

Mas nem tudo são flores. Slim como estrela solitária da ATS e da Suécia na Fórmula 1 teve grandes dificuldades nas provas seguintes. Na Bélgica, o piloto não conseguiu tempo para colocar seu carro no grid. Em Mônaco, na Espanha e na França a situação se repetiu. Foi só na Inglaterra que a situação se reverteu positivamente. Em Silverstone, Borgudd enfim conseguiu colocar o carro no grid novamente, num aliviante 21º lugar, numa prova em que até Nigel Mansell não se classificou. Mamma mia, here I go again! A corrida teve abandonos a rodo desde a primeira volta. Siegfried Stohr rodou logo de cara. Michelle Alboreto de Tyrrell teve problemas e também abandonou. Um a um, nada menos que 16 pilotos abandonaram por algum motivo, entre eles Nelson Piquet, Alan Jones, Rene Arnoux, Keke Rosberg, Didier Pironi, Gilles Villeneuve, entre tantos oiutros. A vitória foi de John Watson, com Carlos Reutemann em segundo e Jacques Lafitte em terceiro. Aos poucos os pilotos foram chegando e o último dentro dos pontos foi justamente Slim Borgudd, conseguindo levar seu ATS até o fim, e se aproveitando dos abandonos de Arnoux e Patrese que vinham a sua frente. Festa dos alemães, suecos, escandinavos e agregados. Era o primeiro ponto da equipe desde a estreia em 1979 e apenas o quarto ponto da história dos carros amarelos. Além de Slim, só Jean-Pierre Jarier e Hans-Joachim Stuck conseguiram tal feito. Coisa pra gente grande, portanto. Além de tudo, foram os primeiros pontos da fornecedora de pneus Avon na categoria.

Tudo perfeito para Slim. Mas andar de ATS não é coisa fácil, e as coisas começaram a ruir aos poucos. Na corrida seguinte no antigo Hockenheim, Slim largou em 20º, mas o motor Ford não aguentou os altos giros das intermináveis retas do circuito e veio abaixo. Em outra pista veloz, no antigo Osterreichring lá na Áustria, os freios deixaram Borgudd na mão após este largar em 21º. Mais uma corrida sem final feliz para o sueco. As coisas melhoraram em Zandvoort no GP da Holanda, justamente o circuito da primeira vitória sueca na F1 com Jo Bonnier, no distante ano de 1959. Lá, Slim partiu da 23º posição. Devagar e sempre, foi o décimo e último piloto a cruzar a linha de chegada, quatro voltas atrás do vencedor Alain Prost. Na verdade, ele foi um dos nove a finalizar a prova, mas terminou em décimo pois tinha as quatro voltas de desvantagem. Mesmo abandonando, Alboreto já tinha dado 68 voltas, enquanto Slim completou este mesmo número. Acontece. Se pensarmos que no sistema atual, Slim embolsaria um ponto…

No GP da Itália Slim largou novamente da 21º posição, mas não completou após abandonar na décima volta. Na corrida do Canadá Slim largou em… 21º! Deu 40 voltas e parou, terminando por aí a empreitada do piloto baterista na ATS. Como saldo, um pontinho numa equipe pequena. Se não foi brilhante, Slim Borgudd trabalhou direitinho e fez uma temporada bastante digna. Vale dizer que Slim teve mais uma única chance, no calorento GP de Las Vegas, onde Nélson Piquet se sagrou campeão, Alan Jones e Carlos Reutemann brigaram feio e Nigel Mansell desmaiou de calor. Fez o 25º tempo sendo o primeiro dos que não entraram no grid.

Apesar dos pesares, todos viram que Slim era um piloto bastante competente. Pontuar com a ATS foi um feito raro. Além disso, levar o bólido até o fim em três corridas numa época onde as quebras eram constantes até para as maiores equipes, deve ser notado. E Ken Tyrrell, aquele que via a sua equipe a cada ano diminuir um pouquinho de tamanho percebeu isso e foi atrás de Slim para a temporada de 1982. A Tyrrell em 1981 havia feito uma temporada apenas discreta. Foram 10 pontos, todos conquistados pelo carro nº 3 do americano Eddie Cheever, que teve como companheiros o também americano Kevin Cogan, o argentino Ricardo Zunino e o italiano Michelle Alboreto. Para 82, Eddie Cheever havia feito as malas em direção a Ligier, enquanto a Tyrrell manteria Michelle Alboreto para dividir a equipe com Slim. Correr numa equipe tradicional como a Tyrrell ao lado de um piloto que havia feito zero pontos contra o pontinho único de Borgudd na temporada anterior parecia a melhor escolha naquele momento.

Tyrrell, tempos difíceis. Foto: F1 Fanático

O problema de Borgudd é que Alboreto veio extremamente inspirado para 82. Na primeira corrida do ano na África do Sul, Slim largou na 23º posição enquanto Alboreto havia conquistado um ótimo 10º posto. Alboreto com um carro bem mais equilibrado chegou em sétimo, contra o décimo sexto posto de Borgudd. No Brasil, Alboreto largou em 13º e Borgudd em… 21º. Terminaram a prova com os pontos de Alboreto em quarto, contra a sétima posição de Borgudd ao fim da prova. No terceiro GP do ano, no Oeste dos Estados Unidos, Alboreto novamente foi aos pontos finalizando em quarto após largar em 12º. Borgudd foi apenas o décimo e último na pista a completar após quase não largar, ficando apenas na 24º posição nos treinos. Aliado ao fim do dinheiro de Borgudd com seus poucos patrocínios, a Tyrrell preferiu dispensar os serviços do sueco e manter junto de Alboreto o britânico Bryan Henton, que assim como Borgudd não fez nenhum ponto em treze corridas, contra apenas três de Slim. Alboreto fez 25 pontos, evidenciando a situação da Tyrrell de conseguir montar apenas um carro realmente competitivo naquela temporada.

A carreira de Slim Borgudd na Fórmula 1 acabou ali. Após sua empreitada na ATS e na Tyrrell, Borgudd ocasionalmente corria em categorias menores, chegando a andar na Fórmula 3, no famoso GP de Macau, em 1984. Neste ano, a corrida de Macau teve além de Slim Borgudd no grid um tal de Stefan Johansson, um dos suecos de maior sucesso na Fórmula 1. Houve até dobradinha nos treinos, com Johansson largando da pole e Borgudd em segundo. Outros pilotos suecos também estavam naquele grid. O experiente piloto de protótipos Eje Elgh e atualmente comentarista de F1 na TV sueca era um deles. Tomas Kaiser, piloto que correu anos nas categorias de acesso também estava inscrito.

Slim a bordo de seu Mazda no BTCC. Foto: Touringcartimes.com

No decorrer dos anos, Borgudd chegou a competir em outros campeonatos, chegando a disputar as 24h de Le Mans em 1987. Anos depois foi campeão nos caminhões da European Truck Racing Cup. Em 1993, correu no memorável BTCC pela Mazda quando essa tinha sua equipe no campeonato. Em 1994 voltou aos campeonatos regionais de turismo e foi campeão novamente. Sua carreira durou até meados da década de 90, e o piloto pode se considerar um profissional de sucesso tanto nas baterias quanto no automobilismo. E podemos concluir que embora Slim seja mais lembrado na Fórmula 1 por causa do ABBA, a história dele é muito mais que músicas e baquetas.

Por Danilo Dias, de São Paulo.

 

Foto de capa: Site F1 Fanático

Danilo Dias

Danilo Dias é formado em Tecnologia em Futebol, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte e atualmente é estudante de Direito. Apaixonado por futebol, aficionado por automobilismo[...]

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