Estaduais: Válido para o torcedor ou não?

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terça-feira, 07 março 2017
Futebol Brasileiro

Faz algum tempo que se discute a importância, a utilidade e/ou o incômodo das tradicionais competições estaduais de início de ano aos clubes de futebol, sobretudo os de maior investimento das primeiras divisões nacionais.

Para os clubes, fica cada vez mais claro que os estaduais formam uma linha muito tênue entre o desinteresse (para os maiores) e um quase jogo da vida (para os clubes com menores investimentos) em cada temporada.

Mas e o torcedor? Se importa com o que seu clube faz na disputa de um estadual? Ele irá perdoar o plantel de sua equipe, caso ela não vá bem na competição considerada a menor do ano para os grandes?

 

Como tudo começou…

Os estaduais jamais podem ser tratados como um estorvo pelo mainstream do futebol. São competições centenárias, que ditaram o rumo da grandeza e da história de cada time de futebol do país. Como as primeiras competições oficiais em âmbito nacional no Brasil surgiram no fim da década de 50, podemos levar em conta que meio século de nosso futebol (desde a época do amadorismo aristocrata até o boom das torcidas na popularização e profissionalização do esporte) foi construído graças aos estaduais.

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Araken Patusca brilhou em Santos, Flamengo e São Paulo apenas nos estaduais. Foto: Blog Soberano Arruda

 Sem os estaduais, craques pré-brasileirão jamais seriam lembrados como Araken, Luizinho, Roberto Belangero, Arthur Friedenreich, Heitor, Teleco, Boyes e Charles Miller, só para citar alguns apenas do estado de São Paulo. E certamente, nenhum time grande do nosso país já seria grande antes dos títulos históricos dos estaduais disputados principalmente entre as décadas de 30 e 50, quando o futebol se profissionalizou e se popularizou.

 

O torcedor e os clubes de menor investimento

É bem claro que se um torcedor de qualquer clube fosse perguntado se prefere um título estadual a um nacional ou continental, a segunda opção seria a resposta certa. Porém, a realidade de um clube, não é a mesma do outro. Existem cerca de 800 clubes em situação profissional no Brasil atualmente, e uma ínfima parcela se dá ao luxo de entrar num estadual o considerando como uma competição sem grande importância. Muito mais exceções do que regra, os clubes que entram num estadual sem dar importância a competição geralmente estão se preocupando com competições continentais ou nacionais. Se formos levar em conta que este grupo não é formado por mais de 14 ou 15 clubes, podemos então afirmar que a realidade do ‘estadual estorvo’ só faz parte do cotidiano de apenas 1 a 2% dos clubes do país.

A torcida abcdista lota o Frasqueirão no Campeonato Potiguar. Foto: Salveomaisquerido

 Voltando ao torcedor, que pode torcer para estes oito clubes, mas que torcem também para os outros 792 distribuídos pelo país, podemos entender como a visão do campeonato estadual é formada empiricamente por quem vive apenas o futebol que está abaixo dos olhos. Graças aos estaduais, mais de 700 clubes profissionais do país podem ter um calendário e um campeonato para disputar. Em relação a sua importância, estaduais são motivo de orgulho para equipes de menor investimento por todo o país. O ABC é o orgulhoso maior campeão estadual do mundo, com mais de 50 conquistas. Portuguesa com três conquistas, Ituano com dois títulos e Inter de Limeira, Bragantino e São Caetano com uma conquista cada contam sempre o valor que essas competições têm em suas histórias. O América é o eterno decacampeão mineiro. No Rio, o bicampeão Bangu, o heptacampeão América e o campeão São Cristóvão vangloriam seus feitos até os dias de hoje. E as torcidas dos clubes citados jamais escondem o orgulho por estes títulos.

 

Uma visão do interesse

Enquanto muitos criticam a existência dos estaduais no futebol, podemos dizer que no país, não haveria futebol sem eles. O futebol é democrático e deve ser para todos. E mesmo que o formato não seja ideal e merece críticas pelas dificuldades impostas aos menores clubes pelas federações, os estaduais e as federações locais ainda permitem uma difícil, porém possível permanência destes pequenos clubes em atividade. E quando o clube grande que reclama dos estaduais vai bem, não deixa de lotar seus estádios e lucrar com a renda das arquibancadas.

O calendário pode ficar inflado, os clubes maiores podem reclamar da grande quantidade de jogos, mas vivemos em épocas melhores. Haviam tempos em que grandes clubes tinham dois jogos marcados para o mesmo dia. Hoje em dia isso não acontece mais, e nem há partidas em dias seguidos, raramente sendo marcados com apenas dois dias de diferença. Mesmo assim, quem não gosta da quantidade dos jogos prefere ainda colocar a culpa nos estaduais, sem olhar para si mesmo e analisar se a profundidade de seu plantel é adequada ou se a base é bem utilizada para manter o bom nível de futebol durante toda a temporada. Em suma, os estaduais são muito mais importantes historicamente e desportivamente para a grande maioria dos clubes brasileiros do que apenas um estorvo que infla calendários e dá prejuízo aos ditos grandes clubes. E para o torcedor, pouco importa a competição na hora de torcer para o seu clube do coração.

 

Foto de capa: Torcida do XV de Jaú: Na quarta divisão paulista, o Zezinho Magalhães possuía uma média maior que grande parte dos clubes que disputavam as primeiras divisões nacionais. Crédito: Tiago Pavini/XV de Jaú

Por Danilo Dias

Paulo Arnaldo do Amaral Lima

Paulo Arnaldo, paulista, CEO da Poliesportiva, jornalista, apresentador e narrador esportivo. Conhecido no meio jornalístico como P.A., Paulo Arnaldo tem vasta experiência desde 2008 no jornalismo e[...]

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