Esporte e política, imagens que derrubam máscaras

Esporte e política, imagens que derrubam máscaras

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sexta-feira, 23 setembro 2016
Outros Esportes

Por Gabriel Morais

Em tempos que vivenciamos crises diplomáticas, sociais e estresse nos quatro cantos do planeta um fato curioso e histórico, ocorrido nos Jogos Olímpicos Rio 2016, chamou a atenção do mundo todo. A atleta norte-coreana Hong un Jong e a sul-coreana Lee Eun Ju, a convite da última, tiraram uma foto juntas e conversaram após os treinos da ginástica na Arena Olímpica do Rio.

Mas o que isso tem de tão especial?  As pequenas orientais conseguiram fazer, em 5 minutos, o que os governos de seus países não conseguem fazer há décadas. Muito se falou, na imprensa ocidental, que a atleta sofreria sanções do governante norte-coreano Kim Jong-un pois o tratamento dado aos que se rebelavam contra os seus ideais ou eram derrotados nas competições não era dos melhores. Nada houve. Nem sanções, nem comentários dos governos coreanos. Depois de dois boicotes, por parte do Norte, aos Jogos Olímpicos, sendo o primeiro em Los Angeles 1984 e depois em Seoul 1988, o esporte tinha dado o seu recado. A selfie caiu como uma bomba no colo do ditador.

 

Recado dado, resposta perigosa…

 

Jesse Owens nos Jogos de Berlim 1936 foi o primeiro grande exemplo onde o esporte passou pela barreira política. Foto: Internet

Semanas após o término dos Jogos, Kin Jong-un autorizou a prática de mais um abominável teste nuclear em seu território, onde sua força foi detectada nas regiões próximas ao local do fato, provocando a ira de países como os Estados Unidos e, principalmente, da vizinha Coréia do Sul. Mesmo com todos os problemas políticos o ditador se diz um entusiasta dos esportes, reformulando recentemente um grande projeto olímpico para seu país. Projeto este que vinha sendo tocado por sua família, há três gerações no poder. Opa! Já vimos este filme, não é mesmo?

O país recebeu recentemente visitas de alguns atletas americanos como o lutador de MMA Bob Sapp e o mais famoso, Dennis Rodman, estrela da NBA. Os dois rasgaram elogios a Kim Jong-un, e exaltaram o estilo de vida das pessoas. A educação de base no país é rigorosa, gratuita até o nível secundário e a saúde também. Sapp inclusive disse na época que estava apreensivo com a viagem mas que isso mudou totalmente quando colocou os pés na capital Pyongyang. Encontrou uma cidade limpa, organizada, pessoas educadas e serviços a pleno vapor. Não foi o primeiro a dizê-lo. Jogo de marketing ou a realidade que a mídia ocidental não quer mostrar?

Apesar do crescimento em esportes como o Judô e o Levantamento de Peso os norte-coreanos nunca chegaram a se firmar como favoritos nas competições e nunca sediaram um evento de grande porte, conseguindo no máximo realizar um campeonato de Tênis de Mesa.

 

Esportes e os regimes autoritários

 

Ninguém Segura Este País, linguagem usada pela ditadura militar no Brasil (1964-1985) associando o esporte a vanguarda econômica do Brasil. Foto: Internet.

A brincadeira é antiga. Na Itália dos anos 30, Benito Mussolini. Até pouco tempo atrás, o magnata Sílvio Berlusconi, ex-dono do Milan, envolvido em escândalos de corrupção na política, praticamente falindo o clube tetracampeão mundial. Até Adolf Hitler já usou o esporte como muleta e propaganda de governo nazista nas Olimpíadas de Berlim em 1936. Outro exemplo é o de Cuba que, nas mãos de Fidel Castro, tornou-se uma potência esportiva. Sediou os Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991 e colheu resultados expressivos nas lutas, boxe e voleibol. Colheu também uma série de escândalos diplomáticos e deserção de atletas cubanos a cada competição fora da ilha.

Em contrapartida, lembro aqui também duas entrevistas polêmicas do craque Dejan Petkovic, ex-meia de Vitória, Flamengo e Vasco da Gama, que colocaram lenha no grande debate sobre como o esporte era tratado nas potências socialistas. Pet, que sempre foi preterido por sua seleção, falou de sua infância em Majdanpek, antiga cidade da Iugoslávia (hoje dividida entre sete nações independentes), e como o ensino esportivo era essencial na formação de um cidadão. Conseguiu falar da parte boa e não entrou no assunto dos conflitos históricos, como as repúblicas socialistas usavam o esporte com um dos pilares para fazer frente aos Estados Unidos na Guerra Fria. A mesma coisa que o ‘’Tio Sam’’ faz, e muito bem, até hoje.

Aqui, em terras tupiniquins, o próprio governo militar, com o general Emílio Garrastazu Médici, se escorou na campanha do Brasil na Copa do Mundo de 1970 para fortificar o ‘’Milagre Econômico’’. Quem não se lembra do hit: ’’Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção…’’ Ninguém mais segurou este país…

O que une a todos os citados? Justamente a maneira que utilizam o esporte: como uma máscara, uma forma de mostrar poder político. O amor pelo poder, não pelo esporte.

Precisaremos de mais imagens bombásticas como esta.

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