Em ‘Match Point’, Woody Allen usa metáfora do jogo de tênis para falar de sorte na vida

Em ‘Match Point’, Woody Allen usa metáfora do jogo de tênis para falar de sorte na vida

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sexta-feira, 18 agosto 2017
Tênis

“O homem que disse ‘prefiro ser sortudo a ser bom’ entendeu bem a vida. As pessoas têm medo de admitir que grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que tantas coisas estão fora do nosso controle! Há momentos, em um jogo, em que a bola bate na parte superior da rede e, por uma fracção de segundo, pode ir pra frente ou cair pra trás. Com um pouco de sorte, ela vai pra frente e você ganha. Ou talvez não vá, e você perde”.

De origem humilde, os amantes Chris e Nola entram na vida de uma família inglesa abastada – Reprodução

A frase acima é dita, em off, pelo instrutor de tênis Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers), no começo de “Match Point” (2005), um dos melhores longas da “fase europeia” de Woody Allen. No momento da fala do protagonista, Allen filma uma rede de tênis e uma bolinha amarela passando de quadra em quadra até bater na fita superior e subir. Neste momento, a imagem é congelada, sem que o espectador saiba em qual dos lados da quadra a bolinha irá cair.

Ao contrário de Hitchcock, que usou em “Pacto Sinistro” uma partida de tênis para criar tensão e alternância dramática, Woody Allen utiliza a modalidade esportiva em “Match Point” como metáfora da vida. E ainda para criar suspense em torno de seu protagonista e de sua sina, qual fosse uma homenagem ao mestre do gênero.

Rodado na Londres de Hitchcock, o filme traz o irlandês Chris, a priori, trabalhando em um clube de tênis da aristocracia inglesa. Ex-jogador profissional (diz já ter duelado com o mito Andre Agassi), ele conta a interlocutores não ter levado a carreira adiante por achar a vida de tenista e suas respectivas viagens entediante. Preferiu apostar na sorte.

No clube em que dá aulas, conhece o playboy Tom Hewett (Matthew Goode) e, posteriormente, sua irmã, Chloe (Emily Mortimer), e sua noiva, Nola Rice (Scarlett Johansson).

Com os laços cada vez mais estreitos com Tom e a abastada família Hewett, Chris acaba namorando e casando com Chloe, participando, assim, de seus hábitos e costumes elitistas.

Plebeu de origem, no entanto, se identifica mais com Nola, atriz norte-americana frustrada que vive reprovada em testes de elenco, e acaba se apaixonando por ela.

O instrutor de tênis conhece, através do irmão dela, Chloe, a futura mulher – Reprodução

Até então beneficiado por uma suposta sorte de cair numa família rica e arrumar um emprego bem remunerado e cheio das mordomias na empresa do sogro, a maré do protagonista parece virar no momento em que Tom e Nola terminam o noivado. A moça volta para os Estados Unidos, mas, sem sucesso na carreira artística, retorna pouco tempo depois à Inglaterra.

Quando ambos se reencontram numa galeria de arte em Londres, Nola e Chris começam, então, um caso ardente, que resulta na gravidez da moça. O dilema entre a vida estável, porém fria, com Chloe (que tenta sem sucesso, num primeiro momento, ter um filho com ele) e as tardes quentes com a amante, em pleno horário de expediente, passa a transtornar os pensamentos do rapaz.

A situação começa a ficar ainda mais tensa (o protagonista chega até a falar em azar) no momento em que Nola pressiona Chris a largar a mulher para ficar com ela e o bebê que carrega na barriga.

Em meio a óperas e muita música lírica na trilha do filme, ao contrário do jazz de New Orleans das produções norte-americanas de Woody Allen, Chris decide tomar uma atitude extrema.

E as consequências dessa ação podem, ou não, vir a ser um novo golpe de sorte na vida do ex-tenista profissional. Depende de que lado a bolinha (ou outro objeto, como uma aliança) cairá após quicar na rede (mureta).

 

Leonardo Guandeline

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