Doria convidará Bernie Ecclestone para participar de concorrência que privatizará Interlagos

Doria convidará Bernie Ecclestone para participar de concorrência que privatizará Interlagos

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quinta-feira, 17 novembro 2016
Automobilismo

Diante da incerteza em relação ao futuro do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 em Interlagos, o prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), afirmou nesta quarta-feira que conversará sobre a privatização do autódromo – uma de suas promessas de campanha – com o manda-chuva da categoria, Bernie Ecclestone. No encontro, previsto para a próxima semana, o tucano deve convidar Ecclestone a participar da concorrência que privatizará Interlagos.

“A empresa do Bernie pode isoladamente ou consorciadamente ser uma daquelas que vai disputar o programa de privatização de Interlagos”, declarou Doria ao portal G1, da TV Globo, após encontro nesta quarta-feira para tratar do tema com o atual prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT).

 

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Em conversa com Haddad nesta quarta-feira, Doria confirmou que irá mesmo privatizar o autódromo de Interlagos em sua gestão – Foto: The Cahier Archive

A Prefeitura de São Paulo trouxe a Fórmula 1 de volta para a cidade em 1990 (após 9 anos de corridas em Jacarepaguá, no Rio), na gestão de Luiza Erundina (PSOL). Mas a permanência da capital paulista em sediar a etapa brasileira da maior categoria do automobilismo mundial preocupa. Interlagos apareceu recentemente na lista de circuitos provisórios para a próxima temporada. Na opinião de Doria, privatizar o autódromo é a única saída para manter a corrida em Interlagos.

Quando souberam da notícia da provisoriedade do GP do Brasil, os representantes da prova mostraram-se surpresos, alegando que há um contrato vigente com a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) até 2020.
Sede da etapa brasileira da Fórmula 1, além de outras grandes competições automobilísticas, o autódromo José Carlos Pace (Interlagos) foi assunto debatido não só por Doria ao longo da campanha eleitoral deste ano, mas também por Haddad. O atual prefeito, em contraposição ao anúncio do tucano de privatizar o local, disse que transformaria Interlagos em um parque, beneficiando a população daquela região da cidade.

Doria pretende arrecadar cerca de R$ 7 bilhões com a venda de Interlagos e do Anhembi. Mas quem for adquirir o complexo do autódromo, disse o prefeito eleito, terá de manter o parque aberto à população.

 

Administração da SPTuris

Interlagos atualmente é administrado pela São Paulo Turismo (SPTuris), empresa de Sociedade Anônima (S.A), que tem orçamento independente da administração municipal, mesmo tendo a Prefeitura de São Paulo como principal acionista.

“Não há repasses diretos de valores para suprir as despesas do Autódromo de Interlagos, que são da ordem de R$ 7 milhões (sete milhões de reais) ao ano, custeadas pelas receitas de exploração comercial das áreas e demais atividades realizadas no local”, diz a Prefeitura de São Paulo, em nota enviada à Rádio Poliesportiva.

Ainda segundo o governo municipal, o investimento anual para o GP Brasil de Fórmula 1 é de cerca de R$ 45 milhões. Segundo a pesquisa de campo do Observatório de Turismo e Eventos de São Paulo (OTE-SP) realizada em 2015, o turismo na Fórmula 1 movimenta mais de R$ 260 milhões na cidade.

 

Um circuito de histórias

Interlagos está no imaginário de muita gente, especialmente daqueles que gostam de automobilismo. Em suas pistas já passaram pilotos das principais categorias mundiais, além de provas de esportes a motor, corridas de pedestre, shows de música e outros eventos.

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O GP Brasil é disputado em Interlagos desde 1973, com exceção dos anos de 1978 e de 1981 a 1989. Na imagem, a comemoração pela vitória em Interlagos de Emerson Fittipadi em 1974 – Foto: The Cahier Archive

Inicialmente, Interlagos tinha sido planejado para ser uma cidade-satélite onde, além de um autódromo, teria infraestrutura de residências, conjuntos comerciais, hotel, igreja e outros estabelecimentos. O primeiro projeto começou a ser desenhado em meados da década de 1920 pelo engenheiro britânico Louis Romero Sanson, que possuía um plano imobiliário para a região sul da capital paulista.

Alfred Agache, urbanista francês que também participou da proposta, sugeriu batizar a área de “Interlagos”, pela semelhança com a região suíça de Interlaken – que significa “entre lagos” –, pois a área paulistana fica entre duas represas, a Billings e a Guarapiranga.

Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna e irmã do tricampeão brasileiro, conta que o circuito era especial para Ayrton. “Imagino que, depois do que ele viveu ali, se tornou mais especial para cada brasileiro. Lembro que, à época da reforma do Autódromo, ele contribuiu com opiniões técnicas sobre o traçado e, especialmente, na curva do S. As pistas de Interlagos contam histórias emblemáticas de Ayrton, especialmente nas suas duas vitórias em São Paulo pela Fórmula 1. O Circuito de Interlagos é um marco na história da Fórmula 1 e na vida de Ayrton. É um lugar de referência para cada brasileiro, servindo de inspiração às suas conquistas pessoais.”

 

Conversa antiga

O discurso de privatizar o autódromo de Interlagos e também o de conceder o estádio do Pacaembu à iniciativa privada – duas promessas de campanha Doria – já é conhecido dos paulistanos pelo menos desde 1994. Naquele ano, o então prefeito Paulo Maluf (PP), enviou à Câmara Municipal um projeto de lei para que os vereadores autorizassem a venda do estádio, a do autódromo e também a do Teatro Municipal. Mas os parlamentares foram contrários à proposta.

 

Tombada pelo patrimônio histórico, fachada do Pacaembu é a mesma desde a inauguração do estádio, em 1940 – Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Na ocasião, Corinthians e a Federação Paulista de Futebol (FPF) estavam interessados na aquisição do Pacaembu, caso o Legislativo municipal autorizasse. Também em 1994, o estádio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual de preservação, o que diretamente inviabilizou a intenção de Maluf, que alegara que desde então o local já dava prejuízos aos cofres públicos.

Com a fachada protegida por lei, o Pacaembu, ao longo dos anos, perdeu a concha acústica, ganhou o tobogã, teve suas arquibancadas modificadas e sua capacidade reduzida. Mas a fachada continua a mesma. Por ser um patrimônio tombado, toda proposta de alteração na estrutura do estádio tem de ser antes analisada e autorizada pelo Condephaat.

Vinte e dois anos passados da tentativa de Maluf e algumas gestões depois – Celso Pitta também cogitava vender os dois equipamentos esportivos; e Gilberto Kassab (PSD) falava em concessão púbica do Pacaembu, assim como o atual prefeito Fernando Haddad -, o assunto privatização do Pacaembu e de Interlagos voltou à tona.

 

A casa de veraneio do Rei

Desde que inaugurado, em 1940, o Paulo Machado de Carvalho foi palco de desfiles cívicos, comícios políticos e de grandes espetáculos futebolísticos. Apesar de considerado casa do Corinthians antes da construção do Itaquerão, foi no gramado do Pacaembu que o Rei desfilou com grande desenvoltura ao lado da corte santista. Se a casa de Pelé era o estádio da Vila mais famosa do mundo, a de veraneio foi o Pacaembu, embora o Rei lá não fizesse chover apenas no verão, mas também em todas as demais estações do ano.

Ao longo dos últimos anos, uma das possibilidades era a de que o Santos arrendaria o estádio. O Peixe já manda algumas partidas no Pacaembu há algum tempo e tem no patrimônio histórico da Zona Oeste paulistana sua segunda casa.

Segundo o ex-prefeito Paulo Maluf, Pacaembu já dava prejuízo aos cofres públicos desde 1994 – Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Mas logo após a vitória de Doria, durante as comemorações dos 100 anos da Vila Belmiro, o clube lançou o projeto para a construção de uma nova arena na Baixada Santista, o que praticamente descartou o arrendamento do Pacaembu.

 

Propostas de modernização em análise

Em 2009, durante a administração Kassab e antes de se pensar em Itaquerão, após anos de especulações, a Prefeitura de São Paulo chegou a cogitar, através da Secretaria Municipal de Esportes (cujo titular da pasta era Walter Feldman, hoje secretário-geral da CBF), a concessão do estádio ao Corinthians.

Seis anos mais tarde, em 2015, já na gestão Haddad, o governo municipal apresentou um chamamento público em busca de propostas para parcerias com a iniciativa privada que viabilizassem a modernização do estádio. Duas empresas apresentaram seus projetos, que ainda estão sob análise do Condephaat, sem prazo para a conclusão. Após essa avaliação, ambas as propostas serão debatidas em duas audiências públicas, uma no próprio Pacaembu e outra na Câmara Municipal.

Antes de Doria falar da concessão do Pacaembu, a gestão petista já estudava o assunto. Isso por que o estádio dá um prejuízo da ordem de alguns poucos milhões aos cofres públicos. De acordo com a Prefeitura, os custos com o Pacaembu em 2015 foram de R$4.601.495, e as receitas, de R$ 1.490.577 . Até julho deste ano, a despesa foi de R$4.721.682, para uma receita de R$1.719.253.

(Colaboraram Luiz Máximo e Ivan Marconato)

Leonardo Guandeline

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