Clássico com torcida única: entenda a polêmica e veja as posições dos clubes e do MP

Clássico com torcida única: entenda a polêmica e veja as posições dos clubes e do MP

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segunda-feira, 20 fevereiro 2017
Futebol Brasileiro

Na última sexta-feira (17), o juiz Guilherme Schilling, do Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos do RJ, determinou em caráter liminar que os clássicos entre times cariocas (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) terão torcida única. A decisão foi tomada após os incidentes ocorridos antes do início do derby entre Botafogo e Flamengo – partida realizada pela quarta rodada do Campeonato Carioca de 2017 – em que um torcedor morreu e outros três ficaram gravemente feridos. O Governo do Estado afirmou que irá recorrer.

 

Pioneirismo em MG

 

Clássico com torcida única não será uma exclusividade carioca. Em 2015, pelo campeonato mineiro, Atlético e Cruzeiro se enfrentaram no Independência apenas com aficionados do Galo. Antes disso, em 2014, foram realizadas dez partidas no interior, em Sete Lagoas e Uberlândia, apenas com torcedores mandantes.

 

Em São Paulo

 

A briga na Supercopa de Juniores em 1995 gerou uma série de mudanças no combate contra à violência. Foto: Divulgação

Em abril do ano passado a mesma medida foi tomada para os duelos paulistas – entre Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. O impedimento foi solicitado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo à Federação Paulista de Futebol, após confrontos entre torcedores de Palmeiras e Corinthians, que resultaram em uma morte e pessoas feridas.

Além disso, mais duas medidas foram impostas: as organizadas foram proibidas de entrarem nos estádios com instrumentos, faixas ou quaisquer adereços que as identifique; e também os ingressos não poderiam mais ser doados às uniformizadas, a comercialização dos tíquetes passou a ser, em totalidade, através da internet.

 

Argentina e Rio Grande do Sul

 

Na Argentina, após um 2013 violento, todos os jogos passaram a ter torcida única. No mesmo ano, no Rio Grande do Sul, a Federação Gaúcha marcou um Gre-Nal apenas com tricolores. Entretanto, a ideia não foi adiante e a decisão foi revertida. Dois anos depois, os gaúchos inovaram e foram na contra-mão disso tudo com a implementação da torcida mista em um dos clássicos mais famosos do Brasil.

 

Visão do Ministério Público

 

Secretaria de Segurança Pública de SP definiu em 2016 medidas contra violência; torcida única em clássicos foi uma delas. Foto: Yan Resende

Em abril de 2016, após a decisão o MP de São Paulo, por meio de coletiva concedida pelo Secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, defendeu e explicou a medida. “Nenhuma medida será mágica, mas acreditamos que esse conjunto será efetivo. Já reduzimos a violência dentro dos estádios… vamos seguir tomando medidas para que tenha efeito também fora deles”.

O Promotor Paulo Castilho foi pela mesma linha e explanou a importância de novas punições. “A impunidade alimenta a criminalidade entre as torcidas. O modelo de hoje incita a violência entre elas, mas o cerco está se fechando”.

 

Clubes são contrários à torcida única

 

Torcedores de Botafogo e Flamengo entraram em conflito antes do clássico pelo estadual desse ano. Foto: Marcelo Baltar

Os quatro grandes cariocas se opuseram à decisão do Juizado Especial. Eurico Miranda foi além e ameaça não colocar o Vasco em campo na fase decisiva do campeonato estadual. “Se tiver torcida única na final, não tem jogo, o Vasco não vai jogar”, afirmou o presidente cruzmaltino em entrevista.

O Fluminense divulgou uma nota oficial em seu site, confira a seguir:

“O Fluminense Football Club é contra a decisão da Justiça que determina torcida única em clássicos do Rio de Janeiro. A instituição sempre tratou os seus rivais como adversários, jamais como inimigos, e lamenta o fato de o show protagonizado nas arquibancadas estar cada vez mais comprometido. A torcida tricolor já proporcionou lindas festas ao longo dos últimos anos e elas ficam ainda melhores quando há coirmãos ao lado. Esperamos que a medida não seja definitiva e que o bom senso prevaleça, pois quem sai perdendo nessa situação é o verdadeiro torcedor”.

Os presidentes de Flamengo e Botafogo também endossaram o discurso dos rivais. “O Flamengo é totalmente contrário à implantação da torcida única nos estádios, porque entende que a medida não resolveria o problema da violência. Já vimos conflitos entre torcidas do mesmo time e conflitos entre torcidas em locais muito distantes do estádios”, disse Bandeira de Mello.

“Se querem fazer experiência de torcida única, o Botafogo nada tem contra qualquer iniciativa em favor do pleno desenvolvimento do esporte, da segurança das pessoas, está sempre disposto a colaborar. Mas não dessa maneira”, ponderou Carlos Eduardo Pereira.

 

Punições antigas

 

O RS foi na contra-mão dos outros estados e implementou o setor de torcida mista nos Gre-Nais. Fonte: Diego Vara/Agência RBS

Em 20 de agosto de 1995 aconteceu a final da Supercopa São Paulo de Juniores entre Palmeiras e São Paulo no Pacaembu. Mas do jogo poucos se lembram. A partida ficou marcada como a “Batalha do Pacaembu”, quando tricolores e palmeirenses entraram em conflito e transformaram o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho em um palco de guerra. O resultado foi a morte de um torcedor. O episódio foi um divisor de águas na relação da Justiça com as organizadas. A estratégia do MP foi tentar exterminar as organizadas. As torcidas Mancha Verde e Independente foram extintas, assim como os bandeirões das arquibancadas. Até hoje, essa medida gera polêmica e divergências, assim como os clássicos com torcida única. Outra mudança por conta do episódio de 95 foi a criação do Estatuto do Torcedor.

 

Por Gabriel Manzini

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