Channel 4 britânico inova na transmissão paraolímpica e gera inclusão na TV

Channel 4 britânico inova na transmissão paraolímpica e gera inclusão na TV

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sexta-feira, 23 setembro 2016
Outros Esportes

Por Luiz Máximo

Precursora na aposta de uma cobertura diferente dos Jogos Paralímpicos, desde Londres-2012, o canal público tem conseguido o objetivo. No Rio, a transmissão chegou a 700 horas de programação, além do conteúdo online. A campanha promocional atual “Superhumans – Yes I Can” (Superhumanos, Sim, eu posso), que mostra deficientes atletas e comuns em momentos extraordinários, já teve mais de 50 milhões de visualizações. Alguns veículos ingleses criticaram o vídeo. Nada que abale, pois a ideia é atingir o maior número de pessoas possíveis a cada edição.

Depois da grande cobertura nos jogos olímpicos do Rio, a emissora Britânica inovou mais uma vez, atraindo milhares de telespectadores. Foto: Divulgação

Temos um relacionamento estreito com entidades de caridades de deficientes e eles apoiam nosso trabalho sem reservas. Mas, no geral, acredito que o jeito que a mídia retrata pessoas com deficiências ainda tem um longo caminho pela frente. Mas estamos fazendo progresso significativo — disse Dan Brooke, diretor de marketing e um dos idealizadores da cobertura.

Depois de “chocar” o mundo em casa, com uma cobertura completa, que teve mais de 500 horas de programação, no Rio-2016, a intenção era ir além no esporte e do esporte. “Antes dos Jogos de Londres de 2012, os Jogos Paralímpicos eram vistos como um primo de segundo grau da Olimpíada, e sobre os mesmos pairava um ar de pena. Tivemos que ousar tanto na escala da programação como no jeito de agirmos, de forma a chocar as pessoas a mudarem de ideia” lembra Brooke.

Várias modalidades foram mostradas dentro de sua essência, colocando o telespectador dentro do esporte. Foto: Divulgação

“Conseguiram com o aperfeiçoamento da tecnologia — há quatro anos, o LEXI, um sistema de gráficos para explicar as inúmeras categorias, foi criado, e agora trabalha em 3D, com dublagem de artistas — e, sobretudo, com a presença maciça de apresentadores também com alguma deficiência. Em 2012 eram 50%, agora são 75% da equipe. O que Londres deixou de legado foi que a metade dos apresentadores deficientes migraram para outras funções dentro da Channel 4, como apresentar programas de atualidades e documentários históricos. O Rio teve um impacto ainda maior: 75% dos apresentadores de televisão têm algum tipo de deficiência como também têm 15% da equipe de produção”, explicou o diretor.

Entre eles, o ator RJ Mitte, mundialmente conhecido pelo papel de Walter White Jr, filho do protagonista da série americana “Breaking Bad”. Ele foi convidado para comentar alguns esportes pela TV, como a bocha. Atuante na luta pela inclusão dos deficientes, o jovem de 24 anos crê que o crescimento dos Jogos Paralímpicos ajudarão nesse processo em todos os setores da sociedade. “Acho que a importância desses jogos não se limita simplesmente aos deficientes. No fundo, os jogos impactam todo mundo e terão uma influência sobre a maneira em que vemos uns aos outros, o que trará um benefício para o mundo, conduzindo-o numa direção positiva”, analisou o ator, que espera uma abertura maior também em Hollywood.

A variabilidade de esportes e o estilo diferente de transmissão fizeram com que a emissora alcançasse uma das suas maiores audiências na história. Foto: Divulgação

Apesar de ter jogado futebol e praticar esportes de inverno, Mitte garante que não tem muita aptidão para ser atleta. Ele agradece a oportunidade dada pela Channel 4 a ele e todos os deficientes. “A cobertura realizada pela Channel 4 é incrível. Acho que eles são pioneiros, abrindo um novo jeito para as pessoas encararem a deficiência e acho que abrirá muitas portas e oportunidades para os deficientes” conta.

O bom humor foi peça fundamental para desmistificar as deficiências. Tanto na leveza da transmissão das provas quanto em programas específicos, como o “The Last Leg” (A Última Perna), criado há quatro anos e que foi mantido na programação. Durante os Jogos Paralímpicos, é exibido sempre em horário nobre britânico diretamente do Rio. “Bolamos um programa de “melhores momentos” que misturou esportes com humor. The Last Leg agora é um programa de entretenimento veiculados às sextas-feiras, à noite, em que se conversa tanto sobre a política e celebridades quanto sobre esportes” conta Brooke.

Muitos telespectadores se surpreenderam com esse estilo, de olhar os detalhes que envolve cada modalidade. Foto: Divulgação

Sem anúncios em 2012, a TV bancou a cobertura de Londres. Apesar de ser pública, a Channel 4 é financiada por empresas privadas, que recebem isenções fiscais como incentivo . Em casa, optou por uma campanha que chamasse a atenção para o atleta. Na primeira edição do “Superhumans”, a ideia era retratar os competidores paralímpicos como a elite, tal como na Olimpíada. O sucesso foi tão grande que valeu à emissora o prêmio Leão de Ouro de Cannes, em 2013. “Tinha uma energia e rebeldia que deu como se fosse um tranco nas pessoas, tal como um relâmpago, obrigando-as a assistir o esporte. No caso dos jogos de 2016, queríamos ser diferentes, mais festivo e alto astral, como é o povo brasileiro. Também queríamos mudar o significado do termo Superhumano e incluir pessoas do dia-a-dia com habilidades espantosas, ao lado de atletas extraordinários. Há mais pessoas com deficiências neste anúncio do que na história inteira da publicidade britânica. E ficamos sabendo que está sendo veiculado nas escolas por todo o mundo visando ensinar às crianças o conceito da inclusão”, enaltece Brooke.

Um dos indicativos de que o objetivo da emissora pela diversidade está sendo alcançado são os números. Pesquisas entre os jovens têm mostrado resultados melhores do que os de Londres-2012. “Lá tivemos a vantagem de competir em casa sem a inconveniência de fuso horário. Se você tivesse previsto isso antes dos Jogos, eu teria rido na sua cara”, brinca.

A emissora, que existe desde 1982 por um ato do parlamento britânico e hoje é gerida pela Channel 4 Television Corporation, tem a quarta audiência do país. Perde apenas para ITV, BBC One e BBC Two.

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