Brasil x Argentina: Uma história do primeiro título brasileiro

Brasil x Argentina: Uma história do primeiro título brasileiro

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quinta-feira, 10 novembro 2016
Futebol Internacional

O jogo de hoje entre Brasil x Argentina será mais um capítulo de uma rivalidade que já ultrapassou os 100 anos. Entre partidas amistosas. disputas de Eliminatórias, Copa América, Copa das Confederações e Copa do Mundo foram 95 partidas, num rigoroso equilíbrio: 36 vitórias para os dois países e 25 empates. Nos gols marcados, os argentinos levam ligeira vantagem: 152 a 148.

No entanto, houve um tempo em que a partida entre brasileiros e argentinos rendia um troféu, a Copa Roca. Muito famosa no começo do século e esquecida nos últimos anos, a Copa recebeu uma nova roupagem e foi rebatizada de “Superclássico das Américas” em 2011. De lá pra cá, foram disputadas 3 edições (2011, 2012 e 2014) e a Seleção Brasileira venceu todos.

Se hoje em dia quando falamos nesse clássico pensamos em catimba, bate-bocas e confusões houve uma época onde a Copa Roca simbolizava a união entre os povos, numa demonstração de respeito mútuo. Por isso, vamos saber como foi criada a Copa Roca e como foi sua primeira edição.

O Sport Club Americano, clube atualmente extinto, era a grande sensação do futebol de São Paulo no início do século passado. Fundado em 1903 na cidade de Santos, se transferiu para a cidade São Paulo cinco anos depois. No mesmo ano inscreveu-se para disputar o Campeonato Paulista, dominado até então por São Paulo Athletic, Paulistano e Germânia. Acabou na quarta posição por dois anos seguidos e em 1910 e 1911 chegou ao vice-campeonato da competição.

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Copa Roca na sala de troféus da CBF (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

No ano seguinte, a equipe se reforçou com dois jogadores uruguaios: os irmãos Antonio e Juan Bertone. Como os uruguaios estavam num estágio um pouco à frente do nosso em relação ao nível técnico dos jogadores, eles foram de suma importância para que o Americano conquistasse o bi-campeonato paulista nos anos de 1912 e 1913. Os feitos da equipe renderam tantos comentários que a fama chegou à Argentina e ao Uruguai. Assim, ainda em 1913 o time foi convidado para fazer dois jogos em Montevidéu e dois em Buenos Aires e foi a primeira equipe brasileira a realizar uma excursão internacional.

Apesar de ter sido derrotado em três dos quatro jogos, o time brasileiro chamou a atenção dos vizinhos platinos pela forma com que praticavam o futebol. Entre as pessoas que se interessaram, estava o ex-presidente da Argentina, o General Julio Argentino Roca. O ex-mandatário decidiu oferecer uma taça a ser disputada entre os selecionados da Argentina e do Brasil para ressaltar e fortalecer as relações esportivas entre os dois países. Nascia assim a Copa Roca.

O General também expressou seu desejo em relação à forma de disputa do troféu: queria que a disputa se realizasse durante três anos seguidos e a seleção que ganhasse o torneio em duas ocasiões levaria a taça em definitivo. As solicitações do ex-presidente argentino não foram atendidas à risca, mas o torneio fez sucesso. Porém, o Brasil só conseguiu montar uma seleção e assim atender ao convite um ano depois.

Assim, brasileiros e argentinos acertaram a disputa da primeira edição da Copa Roca para o dia 20 de setembro de 1914. No entanto, o navio que trouxe a seleção brasileira do Rio de Janeiro sofreu alguns inconvenientes durante a viagem para Buenos Aires e só aportou na capital argentina no mesmo dia da partida, quando deveria ter chegado no dia anterior. Além disso, havia chovido muito em Buenos Aires pela manhã, o que deixou o gramado sem condições de jogo. Por tudo isso, o jogo foi postergado para o dia 27 de setembro.

Presidente Julio Roca (Alexander S. Witcomb - Archivo General de la Nación)

Presidente Julio Roca (Alexander S. Witcomb – Archivo General de la Nación)

Mesmo tendo sido adiada por uma semana, a disputa da Copa Roca gerou grande expectativa entre a população local, por ter sido marcada com muita antecedência. Os delegados dos países que vieram ao Congresso Sul-Americano de Futebol (que não por acaso foi marcado para acontecer no mesmo período que a Copa Roca) haviam sido convidados para o jogo e o grande responsável pela iniciativa, o ex-presidente Roca, também estaria no estádio.

Durante a semana em que ficou em Buenos Aires, a comitiva brasileira participou de muitos eventos, jantares e visitas a diversos pontos turísticos e oficiais da cidade. Porém em meio às recepções veio uma triste notícia: Roca não poderia mais ir à partida, pois seu estado de saúde não era dos melhores. A situação se agravou e o ex-mandatário morreria um mês depois.

Anteriormente ao jogo que marcaria a primeira disputa da Copa Roca, brasileiros e argentinos fizeram um amistoso no mesmo dia 20 de setembro. O estádio do Gimnasia y Esgrima, localizado no bairro de Palermo, recebeu cerca de 18 mil pessoas, maior público já visto numa partida de futebol em Buenos Aires. Os argentinos não tomaram conhecimentos dos brasileiros e venceram por inquestionáveis 3 a 0, com dois gols de Carlos Izaguirre e um de Aquiles Molfino. Em um telegrama enviado ao Brasil, um membro da comitiva informou os acontecimentos, o resultado do amistoso e ressaltou que o principal jogador brasileiro, Rubens Salles, não havia jogado e que por isso o placar tinha sido adverso. O dirigente não estava errado.

Uma semana após a derrota, Brasil x Argentina voltaram a se enfrentar, agora pela disputa da Copa Roca. O mesmo estádio do Gimnasia y Esgrima recebeu pouco mais de 17 mil pessoas dispostas a ver um bom futebol. Nas tribunas, várias autoridades dos dois países e a ausência sentida do idealizador do torneio. A partida estava prevista para começar às 15h e a saída foi dada pelos argentinos.

Após bons ataques dos dois lados, o Brasil abriu o placar aos 13 minutos de jogo. Rubens Salles aproveitou o rebote de um levantamento que foi rechaçado pela defesa argentina, ajeitou a bola e bateu cruzado, sem chances para o goleiro argentino. Era o primeiro gol oficial da Seleção Brasileira. Naturalmente a Argentina veio com tudo para cima do Brasil para tentar o empate. Mas o primeiro tempo terminou com a vantagem brasileira.

No segundo tempo aconteceu o lance mais marcante do jogo. Aos 20 minutos, o atacante argentino Leonardi aproveitou um cruzamento da direita e fez o gol de empate com a mão. O árbitro da partida, o brasileiro Alberto Borgerth, não viu a irregularidade e validou o gol. No entanto, o zagueiro Galup Lanús viu e avisou o árbitro. Sob aplausos de todo o estádio, Borgerth invalidou o gol.

Mesmo pressionando muito, a Argentina não conseguiu empatar a partida. Veio o fim de jogo e o Brasil ganhava pela primeira vez um torneio internacional. Após o jogo, o capitão da equipe brasileira, o médio do Fluminense Pernambuco liderou os demais jogadores e os membros da delegação para receber a Copa Roca das mãos do Ministro de Relações Exteriores da Argentina, José Luis Murature. A primeira Copa terminava num clima festivo e de mútuo respeito entre os times, valores que se perderam ao longo do tempo.

FICHA TÉCNICA

Data: 27 de setembro de 1914.
Local: Estádio do Club Gimnasia y Esgrima, em Buenos Aires (Argentina).
Público: 17.200 pagantes.
Árbitro: Alberto Borgerth (Brasil).
Gol: Rubens Salles aos 13 minutos do 1º tempo

BRASIL – Marcos de Mendonça, Píndaro e Nery; Lagreca, Rubens Salles e Pernambuco; Millon, Oswaldo Gomes, Friedenreich, Barhô e Arnaldo.
Técnicos – Sylvio Lagreca e Rubens Salles (capitães).

ARGENTINA – Juan José Rithner, Diomedes Bernasconi e Carlos Galup Lanús; Ricardo Naón, Ernesto Sande e Santiago Sayanes; Juan José Lamas, Roberto Leonardi, Antonio Piaggio, Carlos Izaguirre e Francisco Crespo.
Técnico – Juan José Rithner (capitão).

Alexandre Anibal

Analista de sistemas, radialista e jornalista, pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte. É membro do Memofut, CIHF e comentarista da Rádio Poliesportiva. Amante - não nessa orde[...]

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