‘Boleiros’ e os ‘causos’ do futebol contados olhando nos olhos

‘Boleiros’ e os ‘causos’ do futebol contados olhando nos olhos

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sexta-feira, 12 maio 2017
Futebol Brasileiro

Houve um tempo em que a internet e o telefone celular, então novidades, funcionavam mal (ainda continuam, dependendo da operadora e da localidade) e eram restritos a parcela menor da população. Naquela época sem preocupações tecnológicas que nos obrigam de tempos em tempos a olhar para a tela de um aparelho eletrônico, as pessoas tinham o hábito de sentar ao redor de mesas de bares e jogar conversa fora de uma forma bastante descontraída, independentemente do assunto. Entre uma bebericada e uma petiscada, havia principalmente a troca de olhares ao falar entre os comensais. Quando o assunto era o futebol, então, as cervejas, os acepipes e as histórias pareciam inesgotáveis.

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Boleiros contam os ‘causos’ do futebol na mesa do Bar do Elídio, na Mooca – Reprodução

Nesse ambiente, sem a tecnologia aporrinhando os protagonistas, o diretor Ugo Giorgetti filmou a maior parte de ‘Boleiros – Era uma vez o futebol’ (1998). E escolheu o Bar do (já falecido) Elídio, na tradicional Mooca, como cenário de uma das conversas de botequim mais emocionantes da história do Cinema.

O título do filme é autoexplicativo. Boleiros do passado vão chegando ao bar ao longo da história para uma reunião de amigos, cada qual com um ‘causo’ sobre o esporte das multidões (era, ao menos, naquela época). Além da mesa do boteco, dos personagens e das cervejas, o cenário é repleto de fotografias ao fundo emolduradas pelo Seo Elídio. Algumas das imagens trazem os atores bem jovens em montagens com as camisas de grandes clubes da capital dos paulistas – Adriano Stuart veste o manto são-paulino, e Flávio Migliaccio, o do Corinthians. Enquanto o primeiro interpreta o treinador de uma escolinha de futebol que descobre talento em um garoto apenas fitando o seu olhar, o segundo dá vida a um saudoso craque alvinegro fictício que lamenta, mesmo ainda reconhecido por fãs, estar velho e com sinais da idade pelo corpo.

Há ainda histórias do Palmeiras (de um craque galanteador dá ‘chapéu’ no técnico durante a concentração na véspera de um clássico com o Corinthians), do Santos (do ídolo sumido que jogou com Pelé e depois de aposentado cobra para dar uma entrevista à imprensa com um propósito mais do que nobre), do Juventus (do juiz comprado por um gângster que comanda a equipe adversária e que manda voltar duas cobranças de pênalti legais), entre outras. Todas de uma época diferente da atual, quando jogadores, em vez de lutar pelo restabelecimento da democracia no país, declaram publicamente apoio a quem exalta a tirania.

Enfim, vale conferir o filme! Ah, e ‘Boleiros…’ tem uma continuação, no mesmo estilo. Mas isso é assunto para um outro texto!

*crédito da imagem destacada: Reprodução

Leonardo Guandeline

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