As 500 milhas de Indianapolis

As 500 milhas de Indianapolis

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1967
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sexta-feira, 26 maio 2017
Fórmula Indy

Cento e seis anos de alegrias, tristezas, competitividade, fortes acidentes, adrenalina, consagração de homens em heróis e muita, muita velocidade. Assim se resume a mais veloz e fantástica prova da história do automobilismo mundial que em 2017 completa cento e seis anos distribuídos em cento e uma edições, só parando por causa das grandes guerras mundiais. Pra contar essa história, a Rádio Poliesportiva foi atrás dos mais marcantes fatos em mais de um século de corridas na fantástica Indy 500.

 

O início de tudo e os primeiros anos

Quando as 500 Milhas de Indianápolis surgiram em 1911, o mundo não era o mesmo mundo em que vivemos hoje. A população mundial era quatro vezes inferior, o Titanic era construído em Belfast, uma garrafa de Coca-Coca custava apenas 5 cents, uma barra de Hershey’s apenas 2 cents e uma caixa de Corn Flakes da Kellogg’s só 10 cents. O Indianapolis Motor Speedway era apenas um bebê de dois anos. E numa época onde os carros de corrida faziam a média de 125 km/h durante a corrida, a primeira prova durou nada menos que 6h42.

Tudo começou em 1909, com a construção do autódromo. O terreno da pista era composto por uma mistura de cascalho e alcatrão. Algumas corridas nos primeiros anos foram realizadas, dentre elas corridas de moto. Alguns acidentes fatais aconteceram já nas primeiras corridas de longa duração, devido ao terreno se desintegrar e formar buracos perigosos aos motociclistas. Mas mesmo com os acidentes, as provas em Indianapolis atraíam muita gente (naquela época, cerca de 40.000 pessoas em determinadas provas), que davam lucro ao então principal proprietário do circuito, o jovem empreendedor Carl Graham Fisher. Fisher então decidiu fazer uma pavimentação nova no circuito, e gastou cerca de US$ 155.000,00 (cerca de US$ 3.800.000,00 nos dias de hoje) na compra e instalação de aproximadamente três milhões e duzentos mil tijolos. Ainda mandou erguer muros nas laterais externas do circuito, para que os carros não saíssem da pista em eventuais acidentes, aumentando a capacidade do público.

Após alguns eventos, a primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis aconteceu no Memorial Day de 1911. O primeiro herói da Indy 500 foi Ray Harroun, que já naquela época era um veterano vencedor de provas de corrida nos Estados Unidos. Inovador que era, dizem que Harroun é um dos mais prováveis inventores do espelho retrovisor como conhecemos nos dias de hoje. Naquela época, os pilotos levavam um mecânico dentro do próprio carro que servia como um socorrista do piloto para quaisquer eventualidades, além de ajudar a olhar a corrida como um todo. Harroun lutou para correr sozinho, a organização deixou e ele com o carro mais leve e seu retrovisor faturou a primeira prova da rica história das 500 Milhas, a bordo de seu Marmon amarelo número 32, diante de um público de 80.000 pessoas. O prêmio ao vencedor foi de US$ 25.000,00. Após a prova, Harroun que já havia saído de uma aposentaria para correr a edição de estreia da Indy 500, voltou a guardar seu volante e se consagrou como um dos grandes do automobilismo mundial.

 

Prova das 500 milhas de Indianapolis nos primórdios. Foto/publicação: Indianapolis Motor Speedway (Página do Facebook)

 

Crescimento da prova durante os anos

No ano seguinte, a prova limitou-se a ter apenas 33 inscritos, número que se mantém até hoje no dia da corrida. Naquele ano também se tornou obrigatório levar o “cavalo” no carro, que era o mecânico passageiro. Muitos acontecimentos foram entrando para a história da corrida. Entrava e saída ano e as regras iam se modificando e dando forma a competição. Foi neste período que os motores Miller e Offenhauser começaram a fazer história. Primeiro os Miller, na década de 20 e 30. A Offenhauser foi ainda melhor. Já na década de 30 os “Offy” figuravam entre os vencedores, dividindo as vitórias com os Miller. A partir da década de 40 até meados da década de 70, os Offenhauser atingiram a incrível marca de 27 vitórias nas 500 Milhas, sendo este até hoje, um recorde absoluto.

Na fundação do Mundial de Fórmula 1 em 1950, a Indy 500 virou parte integrante do calendário da categoria. Porém, não eram muitos os pilotos vindos da Europa que se aventuravam de início no oval dos Estados Unidos. Nessa época os calendários se misturavam e geralmente quem vencia a prova eram pilotos norte-americanos que não corriam na temporada regular da Fórmula 1, não sendo raro vermos nos registros das primeiras temporadas da F1 pilotos vindos da América com uma vitória na temporada, mas sem outras provas durante o ano. Um exemplo claro disso é a presença dos pilotos americanos Johnnie Parsons, Bill Holland e Mauri Rose entre os dez primeiros na classificação geral da temporada de 50 da F1, mesmo estes três correndo apenas a Indy 500. Afinal, nenhum dos pilotos que corriam a temporada regular na Europa andara nas 500 Milhas.

 

Presença dos grandes campeões

Louis Meyer, o primeiro piloto que venceu 3 vezes a Indy 500 e criou a tradição de beber o leite. Foto/publicação: windingroad.com

O primeiro grande campeão da Indy 500 foi Louis Meyer, que venceu por três vezes a corrida em 1928, 1933 e 1936, se tornando o primeiro tricampeão da corrida. Foi Meyer que criou a tradição do leite ao invés do espumante nas comemorações. Em 1933, quando venceu pela segunda vez, pediu um copo de leite coalhado aos organizadores. Em 1936 pediu novamente, mas ganhou uma garrafa e a imagem fez sucesso diante dos fabricantes de leite, que usaram o ato como propaganda. Essa tradição é comum até hoje e foi poucas vezes quebrada, uma das vezes por Fittipaldi na sua vitória em 93, que ao invés de leite, tomou suco de laranja, fruto de suas fazendas.

Após Meyer, Wilbur Shaw venceu por três vezes a corrida em 1937, 39 e 40. Na primeira oportunidade, Shaw venceu com equipe própria e motores Offy. Nas duas outras vitórias, venceu a bordo de carros da Maserati. Após a fase de Shaw, Bill Vukovich surgiu como um dos grandes de sua época. Venceu em 1953 e 54. Em 1955 sofreu um sério acidente onde seu carro, após colidir com outros competidores levantou vôo e capotou várias vezes, ultrapassando os muros de proteção e caindo fora da pista, matando o piloto num ano onde os carros tinham ficado mais rápidos. Seu filho Bill Vukovich II e seu neto Bill Vukovich III correram a prova em anos posteriores, sendo uma das poucas famílias com três gerações correndo a prova, junto com os Andretti.

Roger Ward em 1959 e 62 venceu duas vezes também. Nessa época, a dinastia Foyt começava. A.J. Foyt venceu a prova quatro vezes, em 1961, 64, 67 e 77, sendo um dos pilotos tetracampeões do evento. Outro tetracampeão se mistura a essa história. Na corrida de 1970, venceu a primeira das suas quatro conquistas, completando o tetra em 71, 78 e 87. Ricky Mears é outro grande, e conquistou seu quatro títulos em 1979, 84, 88 e 91. Mears é também o piloto com mais pole positions, conseguindo largar na ponta por seis vezes.

Nessa época, além dos grandes campeões norte-americanos, alguns europeus começaram a se aventurar no evento. Graham Hill venceu a prova em 1966, e é o único piloto até os dias de hoje a ganhar o Mundial de F1, a Indy 500 e as 24 horas de Le Mans, considera a tríplice coroa do automobilismo mundial. Jim Clark também venceu a Indy 500 em 1965 e Mario Andretti em 1969 conquistou a vitória, nove anos antes de vencer o Mundial de F1.

 

Época trágica

Os pilotos que se aventuram até os dias de hoje andam de mãos dadas com o perigo. Sébastien Bourdais não nos deixa mentir, e está fora das 500 Milhas de 2017 após sofrer forte acidente nos treinos classificatórios, sofrendo fraturas na região da bacia. Mas pela força da pancada, saiu barato para o francês. Ainda mais se compararmos com o que já foi a Indy e seus trágicos acidentes. Desde sempre, o Indianapolis Motor Speedway foi um lugar que via pilotos flertando com a morte e por vezes, fatalmente encontrando-a. Já em 1909, antes mesmo da realização da prova alguns pilotos perderam suas vidas no traçado. Espectadores, mecânicos e fiscais também estão envolvidos numa lista de 73 apaixonados por automobilismo que nos deixaram no maior templo do automobilismo mundial.

Na edição de 1919 da corrida, três pessoas morreram durante a prova. Arthur Thurman e Louis LeCocq  se acidentam com seus carros, junto com os mecânicos que iam como “cavalos”. Nicholas Molinaro, mecânico de Thurman sobreviveu com sérios ferimentos. Robert Bandini, mecânico de LeCocq não resistiu. Muitos acidentes durante a década de 30 matavam o piloto e o mecânico ao mesmo tempo nas batidas, o que foi aos poucos, desincentivando o uso do cavalo. A década de 50 perdeu grandes pilotos. Carl Scarborough, Manny Ayulo, Jerry Unser e Bill Vukovich foram vítimas dos carros inseguros e da falta de estrutura da pista. Tony Bettenhausen faleceu em treinos, na edição de 1961. Em 1964, um dos acidentes mais graves da história da prova matou Eddie Sachs na hora, quando o piloto atingiu o carro já em chamas de Dave MacDonald, que faleceu no hospital dois dias depois no hospital, com um grave edema pulmonar, reflexo da inalação de fumaça no acidente.

 

As curvas, muros e a altíssima velocidade sempre foram e são os maiores desafios dos pilotos que competem na Indy 500. Foto/publicação: Indianapolis Motor Speedway (Página do Facebook)

No início da década de 70, podemos dizer que as competições da USAC viviam a fase mais perigosa de toda sua história.  Em 1972, Jim Malloy bateu forte e perdeu sua vida nos treinos, quebrando braços, pernas e tendo sérias lesões na cabeça. O carro não capotou, não pegou fogo, mas a batida frontal/lateral foi capaz disso tudo ao piloto. Era um prelúdio do que viria no próximo ano. Os carros estavam cada vez mais fortes, beirando os 1000 cv. O arrasto aerodinâmico favorecia apenas a velocidade, os motores eram fortíssimos e a segurança precária. Art Pollard nos treinos capotou o seu carro que ficou em chamas e desintegrado. O piloto foi riscado ao asfalto, não resistiu e perdeu sua vida em 12 de maio do ano de 1973, dando início aos fatos catastróficos da edição mais sombria da Indy 500.

Na edição de 1973, choveu forte durante vários dias. Dos 33 carros alinhados no grid, 22 estavam equipados com os poderosos Offy. Carros com o dobro de potência dos F1 da mesma época. A corrida não pode ser realizada no domingo por conta da chuva, sendo comum o adiamento dos eventos em ovais. A prova adiada para segunda teve sua tentativa de largada com a pista ainda molhada, durante a tarde. O acidente de Salt Walther logo na reta de largada envolveu doze carros e fez jorrar combustível no próprio público, quando o carro de Walther se destroçou. Péssimo início para a prova com o saldo de treze espectadores com queimaduras de vários graus, além do piloto Salt Walther ficar seriamente ferido. Na bandeira amarela a chuva forte voltou e a prova foi adiada novamente.

Na terça, com tempo encoberto, finalmente a prova parecia ter prosseguimento. Os campings já se encontravam cheios de lama. Muitos espectadores foram embora, já na segunda-feira. Foi uma terça melancólica, mas a prova parecia fluir bem até a volta 57. O jovem Swede Savage perde o controle de seu carro e bate fortemente nos muros internos da curva 4, próximo da entrada dos boxes. O carro se desintegra e o piloto fica preso ao cockpit de seu carro, pelo cinto. Vê-se o piloto consciente, mas o carro já não existia. Apenas um banco onde o piloto se acomoda, única coisa que sobrou. Este é levado ao hospital, para tratamento. O mecânico Armando Teran, ao ver o acidente de Savage corre para o socorro, mas é atropelado pelo caminhão de bombeiros e perde sua vida no exercício da profissão. A prova segue até a volta 133, quando a chuva cai forte novamente e a organização termina a prova declarando Johnny Rutherford como vencedor, muito distante das 500 Milhas serem completas. Savage foi declarado morto no hospital 33 dias depois do acidente, vítima de uma transfusão de sangue contaminada.

Muito foi feito em nome da segurança dos pilotos após o fatídico 1973. Os carros tiveram uma redução de potência, além das alterações no arrasto aerodinâmico, fazendo os pilotos reduzir a velocidade drasticamente. Medidas que foram eficazes durante um tempo, até o acidente de Gordon Smiley em 1982. Nos treinos, Smiley perdeu o controle de seu carro e se chocou de frente com o muro, morrendo na hora. O carro se desintegrou em várias partes. À grosso modo, muito parecido com o de Bourdais na edição desse ano, de frente, na mesma curva. Mas sem célula de sobrevivência, Smiley não resistiu.

Nos anos seguintes as mortes diminuíram drasticamente, resultado de grandes mudanças em regulamentos e carros, além do próprio autódromo. Mesmo assim, o filipino Jovy Marcelo perdeu a vida nos treinos da edição de 1992 e Scott Brayton também sofreu um sério acidente e não resistiu em 1996, sendo as vítimas da década de 90. Tony Renna em testes bateu forte e não resistiu aos ferimentos em 2003, sendo a última vítima do Superspeedway até os dias de hoje.

 

Acidente de Swede Savage na edição de 73. Foto: AP / Publicado em pinterest.com

 

Muitas alegrias

Mas nem só de tragédias são feitas as corridas. Alegrias enormes em grandes vitórias fizeram das 500 Milhas de Indianápolis objeto de obsessão de muitos pilotos de corrida. A. J. Foyt, Ricky Mears e Al Unser ainda são os maiores pilotos da prova, com quatro conquistas cada. Apenas o brasileiro Hélio Castroneves pode igualá-los esse ano, tendo três conquistas. O escocês Dário Franchitti tem três conquistas também, assim como Johnny Rutherford, Wilbur Shaw e Bobby Unser. Tommy Milton, Bill Vukovich, Rodger Ward, Gordon Johncock, Al Unser Jr., Arie Luyendyk, Dan Wheldon e Juan Pablo Montoya também possuem duas vitórias. Emerson Fittipaldi, após sua empreitada com a Copersucar Fittipaldi na Fórmula 1, mudou-se para os Estados Unidos e estreou na prova pela pequena WIT, e com seu carro rosa pouco fez. Mas pela Patrick tudo mudou, e o Rato venceu 1989 e 1993, sendo um dos grandes que venceram as 500 Milhas e o Mundial de Fórmula 1. Com ele, apenas Jacques Villeneuve, Jim Clark, Graham Hill e Mario Andretti. Mansell, apesar do título da CART, não obteve sucesso na Indy 500.

Por equipes, a Penske domina o grid. São 16 vitórias entre 1972 e 2015, podendo aumentar o número em 2017. Das equipes que ainda correm, a Andretti tem 5 vitórias, contra 4 da Foyt e 4 da Chip Ganassi.

Grandes nomes fizeram história desde os primórdios da corrida. Jules Roux foi o primeiro vencedor não-americano. O francês venceu a prova de 1913. Entre 1921 e 1941, a prova foi vencida sempre por americanos até a parada por causa da Segunda Guerra Mundial. Em 1946 a prova voltou com vitória do inglês George Robson. Só em 1965 um não-americano venceu novamente, sendo Jim Clark o vencedor. Graham Hill ainda levou em 1966, e só em 89 com Emerson Fittipaldi, a primeira vitória brasileira veio e a hegemonia norte-americana foi quebrada novamente. Após Emerson vencer tudo mudou, e as vitórias passaram a ser mais distribuídas entre nações, e os americanos tendo competidores à altura, dificultando as vitórias desde então. Por nações, tirando os norte americanos, o Brasil é o maior vencedor com sete títulos, vindos de Emerson Fittipaldi, Hélio Castroneves, Gil de Ferran e Tony Kanaan.

 

Em 1989, Fittipaldi foi o primeiro brasileiro a faturar a Indy 500. Foto: AP Photo/Seth Rossman via MerlinFTP Drop

 

Edição 2017

A edição de 2017 ganhou brilho e atraiu olhares do mundo todo graças ao anúncio da participação do bicampeão da Fórmula 1, o espanhol Fernando Alonso. O piloto vai a prova juntamente com a volta da McLaren como equipe na competição. A equipe de Woking já venceu a prova e o template do carro de Alonso é muito parecido com o que venceu a prova na década de 70.

Além da participação de Alonso, a prova está cheia de medalhões e atrações. Na primeira fila, Scott Dixon, Ed Carpenter e o atual campeão Alexander Rossi devem buscar a vitória. Na segunda fila e com boas chances, largam Takuma Sato, Fernando Alonso e JR Hildebrand. Takuma Sato tenta ser o maior piloto japonês de todos os tempos, faturando a vitória. Com condições de buscar bons resultados, o japonês voador deve vir forte buscando um bom desempenho. Já Alonso encantou a todos e andou sempre bem em todos os treinamentos. Hildebrand, após deixar escapar a vitória na Indy 500 na última curva ao bater sozinho, deve vir forte buscando um bom resultado.

Tony Kanaan larga em sétimo. Hélio Castroneves é apenas o 19º e o atual campeão da IndyCar Simon Pagenaud larga apenas em 23º James Davison substitui o acidentado Bourdais e larga na última posição.

Um novo capítulo das 500 Milhas nos espera neste domingo, 28, a partir do começo da tarde. Não deixe de acompanhar a maior corrida do mundo!

 

A edição de 2016 vencida por Alexander Rossi. Foto: Indianapolis Motor Speedway ( Página do Facebook)

 

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Foto/Publicação: Indianapolis Motor Speedway (Página do Facebook)

 

Redator da matéria: Danilo Dias, de São Paulo.
Pesquisa fotográfica: Paulo Arnaldo, de São Paulo.

Paulo Arnaldo do Amaral Lima

Paulo Arnaldo, paulista, CEO da Poliesportiva, jornalista, apresentador e narrador esportivo. Conhecido no meio jornalístico como P.A., Paulo Arnaldo tem vasta experiência desde 2008 no jornalismo e[...]

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