‘À Procura de Eric (Cantona)’ e da própria consciência

‘À Procura de Eric (Cantona)’ e da própria consciência

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sexta-feira, 21 julho 2017
Futebol Internacional

O britânico Eric Bishop (Steve Evets) é um carteiro que vive com os dois enteados adolescentes e inúmeros problemas mal resolvidos. Apaixonado pelo Manchester United e saudosista do temperamental ex-atacante francês Eric Cantona, ídolo do clube, carrega consigo há muitos anos a culpa por ter abandonado a primeira mulher e a filha ainda pequena após uma crise existencial na juventude.

O encontro com o ídolo Eric Cantona no quarto do carteiro Eric Bishop – Reprodução

Contudo, é a filha de Eric e Lily (Stephanie Bishop), Sam (Lucy-Jo Hudson), quem acaba promovendo a reaproximação de ambos após todo esse tempo. A jovem precisa concluir os estudos e tem de deixar a filha pequena ora com a mãe, ora com o pai.

Mas Eric não consegue, no primeiro (re)encontro, o qual buscaria a neta, encarar de frente o ex-amor. Transtornado, sai dirigindo seu carro pela contramão (mão certa no Brasil) até sofrer um acidente.

Nos correios, onde trabalha, os amigos até tentam animá-lo, após a alta hospitalar, com piadas, pints de cerveja em pubs durante jogos do Manchester United e livros inócuos de autoajuda. Nada, entretanto, parece alegrar Eric, que ainda tem problemas maiores com os enteados em casa.

Nem mesmo o futebol, naquele momento, é mais capaz de servir de fuga. Em determinada cena de “À Procura de Eric” (2009), do britânico Ken Loach – em clara crítica à elitização e mercantilização do esporte (também) na Inglaterra e à truculência (também) da polícia britânica – Eric solta, ao lembrar com os companheiros de trabalho de suas épicas idas ao estádio, ainda quando Cantona jogava e os ingressos eram mais acessíveis, a seguinte frase: “(o jogo de futebol) É o único momento em que podemos gritar, rir, chorar sem sermos presos pela polícia”.

Cantona diz ao fã que o trompete ajudou a superar os 9 meses de gancho após uma agressão a um torcedor rival – Reprodução

Todavia, à procura de sua própria consciência, Eric encontra no xará (Cantona), estampado em um pôster gigante na parede do quarto, as respostas às inúmeras angústias, crises e questões que carrega consigo.

Numa espécie de alucinação, em meio a brisas de maconha e taças de champanhe, o francês, por meio de frases feitas (geralmente em seu idioma nativo), aparece na vida do carteiro para servir de conselheiro amoroso e guru.

Um dos momentos mais emocionantes do filme, além dos gols mostrados de Cantona nos anos 1990 pelo Manchester United, é quando o ídolo francês conta ao carteiro como superou o gancho de 9 meses (punição por agredir um torcedor do Crystal Palace, no estádio, com uma voadora durante uma partida) através da música. O ex-atacante (será mesmo que somente um amigo imaginário?) também confidencia ao interlocutor que o lance mais memorável de sua carreira foi uma assistência, e não um gol.

Produzido, entre outros, pelo próprio Cantona, “À Procura de Eric” é, além da busca pela própria consciência, um filme sobre amor, futebol, perdão e amizade.

Leonardo Guandeline

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