A ‘Era FIFUSA’ no futsal e os Mundiais ignorados pela FIFA

A ‘Era FIFUSA’ no futsal e os Mundiais ignorados pela FIFA

2
802
0
terça-feira, 16 junho 2020
Além da 12

Houve um tempo em que o futsal não era sequer notado pela FIFA. Sendo assim, em um período quem mandava na modalidade era a Federação Internacional de Futebol de Salão, mais conhecida como FIFUSA. A organização chegou a realizar três Mundiais, onde o Brasil conquistou duas. É sobre esse assunto pouco conhecido que iremos tratar no Além da 12 desta semana.

Por Thiago Lopes, Caieiras-SP

A HISTÓRIA

Em uma iniciativa conjunta da Confederação Sul-Americana de Futebol de Salão e da Confederação Brasileira de Desportos, surgiu a FIFUSA. Dessa forma, sediada em São Paulo, foi fundada em 25 de julho de 1971. Naquela oportunidade constavam as assinaturas de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru, Bolívia e Portugal.

Contudo, o primeiro presidente da entidade foi João Havelange, que nunca exerceu de fato a função, pois na mesma época disputava (e depois conquistou) a presidência da FIFA. Assim, Luiz Gonzaga de Oliveira Fernandes, secretário-geral, foi o mandatário inicial da entidade nesse período.

O esporte começou a se desenvolver e crescer na década de 80 sob o comando de Januário D’Alessio Neto, outro dirigente brasileiro com forte ligação com o Palmeiras. Ele foi quem criou competições como o Campeonato Pan-Americano de Futebol de Salão de 1980, sediado no México e vencido pelo Brasil. Após o sucesso desse evento, foi criado também o Campeonato Mundial de Futebol de Salão.

A PRIMEIRA EDIÇÃO

Foi em 1982, no Brasil, que foi realizada a primeira edição do Mundial. Ao todo, foram 10 seleções que participaram do torneio. Divididos em duas chaves com cinco times, todos os jogos foram disputados no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

A Seleção Brasileira já dominava o esporte naquela época. Sendo assim, não teve dificuldades em vencer o torneio com uma campanha perfeita. Na primeira fase, jogando pelo Grupo A foram quatro vitórias: 5 × 0 na Argentina, 14 × 0 em Costa Rica, 4 × 1 na Tchecoslovaquia (hoje dois países separados: República Tcheca e Eslováquia) e 5 × 1 no Uruguai. Na Chave B ficaram Paraguai, Colômbia, Holanda, Itália e Japão.

Na semifinal o Brasil enfrentou a Colômbia e o resultado foi 4 x 1 para os anfitriões. Então, a decisão daquela edição aconteceu em 6 de junho de 1982 contra o Paraguai, o grande rival brasileiro na Era FIFUSA. Jackson foi o autor do único gol na decisão, garantindo a primeira taça ao Brasil. Dessa maneira, abrindo caminho para o domínio do esporte e os olhos da FIFA para a modalidade.

Campeões do Mundial de 1982. Foto: Divulgação/CBFS

PROBLEMAS COM A FIFA

O segundo Mundial aconteceu na Espanha em 1985. Entretanto, por pouco não saiu do papel, pois a FIFA já estava tentando assumir o controle da modalidade na época. Então, houve ameaça de realização de um torneio mundial com selo oficial da gestora do Futebol. Em seguida veio a proibição do uso da palavra ‘futebol’ por outras entidades a não ser a própria FIFA. Dessa forma, levou a FIFUSA a contrair o nome do esporte para fut-sal – com hífen mesmo.

A SEGUNDA EDIÇÃO

Pressionada, a organização conseguiu aumentar o número de participantes para 12 seleções. Elas foram divididas em 3 grupos, no “A” ficaram Brasil, Argentina, Japão e Holanda. No “B” Espanha, Austrália, Canadá e o Uruguai. O Grupo “C” teve as presenças de Paraguai, Tchecoslováquia, Portugal e Costa Rica. As ausências em relação a 1982 foram Colômbia e Itália, em compensação Espanha, Austrália, Canadá e Portugal debutaram em mundiais de futsal em solo espanhol.

Com 100% de aproveitamento na primeira fase, o Brasil venceu a Argentina por 11 x 0, a Holanda por 16 x 0 e venceu o Japão por 15 x 1. Na segunda fase, agora ampliada para seis equipes divididas em dois grupos o time brasileiro ficou no Grupo 2, com Paraguai e Uruguai. Enquanto o Grupo 1 foi composto por Espanha, Argentina e Tchecoslovaquia. Nessa etapa o time canarinho permaneceu invicto, com duas vitórias de 2 × 0 contra o Uruguai e 1 × 0 no Paraguai.

Na decisão o time brasileiro teve seu primeiro encontro com aquela que se tornaria seu grande rival a partir dos anos 2000, a Espanha. Mas com gols de Douglas, Jackson e Mauro o time abriu 3×0. A Fúria diminuiu no 2º tempo, mas o 3 × 1 garantiu o bi-campeonato invicto para a Seleção Brasileira.

Mascote do Mundial na Espanha - FIFUSA FUTSAL

Mascote do Mundial na Espanha. Foto: Divulgação

O 3º E ÚLTIMO MUNDIAL DA FIFUSA

A FIFUSA, ainda em 1985, elegeu a Austrália como sede do Mundial seguinte, que viria a ser disputado em 1988. Contudo, novamente pressionado pela FIFA para esvaziar o evento, houve mais um efeito contrário. Isso porque aquela edição contou com 16 seleções nacionais na primeira fase.

Naquela oportunidade, no grupo D, o Brasil aplicou nada mais nada menos que 29 x 1 no Japão. Além disso, os Estados Unidos sofreu 12 x 0 e a Tchecoslovaquia 11 x 1. Na segunda fase o time brasileiro foi pareado com Paraguai, Austrália e Argentina no Grupo B. E nada mudou. Novamente mais três vitórias: 10 × 2 contra a Argentina, 5 × 0 contra a Austrália e um apertado 2 × 1 contra o Paraguai.

Na semifinal o adversário foi Portugal e o resultado um 5 × 1 a favor do time, que tinha em Ortiz seu grande nome naquela geração. A decisão em 30 de outubro viu um replay de um confronto da segunda fase entre Brasil e Paraguai. Entretanto houve uma devolução de placar por 2 × 1. Esta que acabou com uma invencibilidade brasileira que durava desde 1957, sem perder há 920 jogos. Assim, o Paraguai se tornou o último Campeão Mundial FIFUSA.

MUNDIAL FIFUSA FUTSAL

Imagem de divulgação do Mundial na Austrália em 1988. Foto Divulgação

‘O FIM’

Três meses após o fim do Mundial FIFUSA na Austrália a FIFA realizou seu primeiro Mundial de Futsal na Holanda. Nessa competição o Brasil foi representado pelo time de um banco privado. Isso porque a CBFS ainda estava filiada a antiga gestora da modalidade. Naquele ano houve três reuniões com objetivo de fundir as duas entidades. A primeira em 19 de janeiro, a segunda em 14 de março e a terceira em 5 de setembro.

Em todas essas reuniões a sinalização era positiva em relação à união que faria da FIFUSA um departamento independente ligado a FIFA. A reviravolta aconteceu em 23 de setembro durante o Congresso Extraordinário da antiga gestora do esporte onde a maior parte das afiliadas rejeitou a fusão. Essa negativa fortaleceu a FIFA e após a saída da CBFS várias federações nacionais abandonaram a antiga gestora.

Devido a insatisfação de alguns associados remanescentes. Em seu lugar surgiu a PANAFUTSAL, Confederação Pan-Americana de Futsal – que manteve os atritos com a FIFA – e depois a AMF, Associação Mundial de Futsal. Tais sucessoras continuaram realizando edições de seu Mundial de Futebol de Salão inicialmente a cada três anos e a partir de 2003 a cada quatro anos.

BRASIL ‘PREJUDICADO’

No Mundial paralelo da AMF/FIFUSA, que tem regras diferentes do Futsal FIFA o domínio do esporte pertence à Colômbia, que venceu as edições de 2000, 2011 e 2015. Além do Paraguai com os títulos de 1988, 2003 e 2007. Portugal, Argentina e Venezuela completam o quadro de campeões com uma conquista cada. Agora representado pela Confederação Nacional de Futebol de Salão o Brasil não passa de um coadjuvante no mundo paralelo do futsal.

Contudo, é devido a essa continuidade do campeonato AMF/FIFUSA que a FIFA não permite que o Brasil utilize as sete estrelas acima do escudo em sua camisa. Como sempre, a entidade valoriza apenas as competições que a mesma organizou. Dessa forma, considera a seleção canarinho ‘apenas’ pentacampeão Mundial de Futsal.

Foto destaque: Reprodução/LNF

Thiago Lopes

Thiago Lopes

Thiago Lopes, 20 anos. Estudante de jornalismo - 6º semestre.

38 posts | 0 comments

Comments are closed.