500 milhas de Indianápolis: cultura, tradição e paixão

500 milhas de Indianápolis: cultura, tradição e paixão

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sexta-feira, 21 maio 2021
Fórmula Indy

No próximo dia 30, haverá a 105ª edição das 500 milhas de Indianápolis. Uma prova icônica não só para o automobilismo americano, mas também para o mundial. Há pilotos e equipes que se inscrevem só para tentar disputar essa corrida, tamanha relevância que tem.

Por: Carol Sales, de Frei Miguelinho – PE

A Indy 500 é, sem dúvida, mais que uma corrida. Ela simboliza a evolução do automóvel e do automobilismo em si. No século 20, os primeiros carros surgiam e havia uma grande curiosidade rondando-os, por serem uma novidade. O empresário Carl Fisher falava sobre criar uma pista para mostrá-los. A princípio, seu intuito era despertar interesse para vender carros. No entanto, ainda não o tinha feito, e um empurrão para isso lhe foi dado em um momento que estava furioso.

Em um dia do outono de 1908, Fisher voltava de Ohio com seu amigo, Lem Trotter. Na estrada de terra, houve um problema com um dos pneus. De um lado, o empresário ficou irritado com o que aconteceu. Do outro, Trotter pensou e fez uma pergunta que, mal sabia ele, mudaria os rumos do automobilismo: “Por que você não constrói aquela pista?”. A partir daí, a ideia começou a ser colocada em prática.

Qual o pedaço de terra perfeito? Encontrá-lo não era uma missão fácil. Nas suas buscas, Fisher e Trotter encontraram terrenos irregulares até que, a alguns quilômetros a oeste de Indianápolis, chegaram até à Fazenda Pressley. Era o lugar ideal: terras agrícolas planas. Então, junto com mais três empresários, Newby, Wheeler and Allison, Fisher desembolsou 72 mil dólares, comprando o terreno que daria origem ao Indianapolis Motor Parkway.

O aperfeiçoamento de uma ideia

O que foi planejado no início para ser uma vitrine de carros, se transformou em um campo de provas automobilístico. Claro que muita coisa precisaria ser aperfeiçoada naquele mundo desconhecido. A pista ainda era de má qualidade, e causou acidentes fatais. O New York Times escreveu em 1909 que as corridas eram “uma diversão adequada apenas para selvagens e devem ser interrompidas”. 

Dadas as circunstâncias, Fisher fez mudanças, como pavimentar o oval de 2,5 milhas com 3,2 milhões de tijolos. Ele construiu o maior autódromo dos Estados Unidos em uma cidade com dezenas de grandes e pequenos fabricantes de automóveis. Com isso, tinha uma visão e uma grande ambição: estabelecer Indianápolis como a capital mundial do motor. 

Um meio fundamental para alcançar seu objetivo era a promoção de corridas. Então, no fim de semana do Memorial Day de 1911, decidiu promover algo que levaria o homem e a máquina ao limite: uma corrida de 500 milhas.

A primeira Indy 500

A primeira Indy 500 foi um sucesso, de encher os olhos. Os Estados Unidos estavam prontos para diversão, e a corrida de carros era atraente e emocionante, o drama era inigualável. O vencedor foi Ray Harroun, cujos esforços para isso duraram seis horas e 42 minutos. Quando saiu do carro, ele fez um pedido: “Estou cansado. Alguém poderia me providenciar um pouco de água e talvez um sanduíche, por favor?”

O sucesso só foi aumentando a partir daí. Já no ano seguinte à estreia, o lugar onde fica o circuito foi rebatizado de Speedway (para quem não sabe, Speedway é uma cidade de pouco mais de 11 mil habitantes, que é um enclave dentro de Indianápolis). O jornal The Times disse uma vez que era “a forma mais bárbara de empolgação”, com 33 pilotos acelerando e indo ao limite máximo de risco. Os cidadãos amavam e queriam mais e mais dessa celebração da engenhosidade americana.

Primeira volta das 500 milhas de Indianápolis de 1915. Foto: reprodução/Indystar

Primeira volta das 500 milhas de Indianápolis de 1915. Foto: reprodução/Indystar

A garrafa de leite (e a de buttermilk)

O vencedor das 500 milhas de Indianápolis toma uma garrafa de leite celebrando a vitória. Mas você sabia que essa tradição começou lá em 1936? Quem triunfou naquele ano foi Louis Meyer, que já havia realizado o mesmo em 1928 e 1933. Só que, na ocasião, ele bebeu buttermilk, feito com sobras da manteiga feita por sua mãe. De acordo com Brooke Williams, diretora de comunicação da American Dairy Association Indiana, ele era refrescante, rico e cremoso. Hoje pode soar um pouco estranho, pois tem um toque azedo e é se usa mais em receitas.

Rick Mears, campeão das 500 milhas de Indianápolis de 1988. Foto: reprodução/Indystar

Rick Mears, campeão das 500 milhas de Indianápolis de 1988. Foto: reprodução/Indystar

Renascimento da tradição

Em 1942, não se ouviu o ronco dos motores no Indianapolis Motor Speedway. Com a Segunda Guerra Mundial, não havia mais carros na pista. No entanto, esse cenário perdurou até 1945.

O circuito estava prestes a ter seu fim. Esse período sem as 500 milhas deixou o lugar em ruínas, sem vida. Então, o empresário Anton Hulman Jr comprou o autódromo. Além disso, na primavera, ele dirigiu ao longo de Indiana levando consigo pôsteres, “levando a palavra” para quem se apaixonou pelo que acontecia no Indianapolis Motor Speedway. Seu intuito era reviver o espírito daquilo que fascinou tanto as pessoas, e que aderissem às corridas para sempre. 

O renascer das 500 milhas foi um marco cultural. Tornou-se o início não oficial do verão, pois sempre ocorre próximo ao Memorial Day, no fim de maio. Além disso, várias “lendas” nasceram e se consagraram no circuito de 2,5 milhas.  Pode-se ousar dizer que temporada da Indy pode ser dividida em duas: Indy 500 e todas as outras etapas do campeonato. Não é a toa que uma frase muito atrelada à essa prova é “O maior espetáculo de corrida”.

 

Takuma Sato, o vencedor das 500 milhas de Indianápolis em 2020. Foto: reprodução/Indystar

Takuma Sato, o vencedor das 500 milhas de Indianápolis em 2020. Foto: reprodução/Indystar

Ao longo dos anos, os carros foram evoluindo, o autódromo, e a atmosfera que ronda a Indy 500 foi se construindo. O Indianapolis Motor Speedway foi abandonado, expandido e renovado. Além disso, passou por duas guerras mundiais, pela Grande Depressão de 1929 e se fortaleceu cada vez mais, virando o grande espetáculo que é hoje. Pais se sentam nas mesmas arquibancadas que os seus pais sentaram, e eles passam essa tradição para os seus filhos. A Indy 500 é mais que uma corrida: é cultura, tradição e paixão, originalmente americana, mas transcendeu as fronteiras do país.

Foto em destaque: reprodução/Indystar

Carol Sales

Estudante de jornalismo, curiosa e aberta a novos desafios. Apaixonada por esportes, tendo uma relação especial com o automobilismo desde pequeninha. Instagram: @carol.sales_

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