Um Passo Atrás: Uma História do Doping Estrutural

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terça-feira, 05 dezembro 2017
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Um passo à frente da fiscalização, como o doping se transformou em política pública

Por Caio Torres

Não é novidade que o doping é uma realidade no esporte. Casos específicos sempre surgem e cada situação requer um cuidado específico. No entanto, o recém-descoberto esquema de doping russo, em que o governo de Vladimir Putin patrocinava os atletas de maneira institucional, é capaz de escancarar diversos ângulos a respeito do tema e revelar uma realidade predominante no mundo do esporte.

Ícarus/Netflix

História

Há muito tempo que atletas recorrem à alimentação especial e a outras substâncias para aumentar suas performances em treinos e competições. Primeiros relatos da utilização de substâncias para o ganho de força e resistência remontam da Grécia Antiga. Uma vez que as drogas acompanham a própria história da humanidade, sua aplicação para o aumento de performance física também sempre se fez presente.

Com o passar do tempo e com a gradual afirmação dos esportes em um cenário competitivo, a regulamentação de normas de conduta e de fiscalização se mostraram necessárias. Nos anos 1920, era consenso no meio esportivo que um controle sobre o uso de substâncias estimulantes deveria ser implementado afim de promover a igualdade e transparência nas competiçoes internacionais. Em 1928, a IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo), referência no mundo esportivo da época, foi a primeira a banir o doping. O primeiro grande caso de doping olímpico foi em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul: o corredor canadense Ben Johnson testou positivo para anabolizantes e esteróides.

Desde então, diversos casos vieram à tona. O mais emblemático deles é o do ciclista Lance Armstrong. Armstrong foi sete vezes campeão do Tour de France, uma das voltas mais importantes do circuito do ciclismo mundial. Venceu uma batalha contra um câncer nos testículos e ainda voltou a pedalar em alto nível. Mais tarde viria à tona a notícia de que Lance teria feito uso de substâncias ilegais durante sua carreira.  Seus ex-companheiros de equipe o delataram em uma investigação federal. O ciclista admitiu ter feito uso de doping por anos e perdeu todos os patrocínios e títulos conquistados.

Apesar de ter feito mais de quinhetos exames antidoping, Armstrong jamais testou positivo em um teste sequer. Esse fato abre uma hipótese: as técnicas de burlar o controle sempre estiverem à frente das técnicas de fiscalização do doping.

Ícarus/Netflix

O esquema russo

Em 9 de novembro de 2015, a WADA (Agência Mundial Antidoping) apresentou um relatório que continha provas de que organizações russas foram responsáveis pela destruição de mais de 1400 amostras positivas de atletas russos. Em 13 de novembro, a IAAF decidiu suspender a Federação Russa de competições internacionais. Grigory Rodchenkov, que atuava como diretor do laboratório antidoping da Rússia, renunciou ao cargo.

No recente documentário Ícarus, de Bryan Fogel, o esquema russo é minuciosamente detalhado com a colaboração do próprio Rodchenkov. A ideia original de Fogel era provar que o sistema de controle antidoping era completamente falho. Para isso ele previa documentar um programa de doping que ele aplicaria em si mesmo para competir na Haute Route, uma prova amadora de ciclismo, e testar negativo em todos os exames antidoping.

O fundador do laboratório olímpico da UCLA (University of California, Los Angeles), Don Catlin, era o contato inicial de Fogel. Catlin aconselha que Fogel entre em contato com Grigory Rodchenkov, ex-chefe do laboratório russo antidoping, para que ele planeje e supervisione o cronograma de dopagem para a realização do documentário.

Durante a produção do filme, saíram as notícias do esquema de doping russo, que colocavam Rodchenkov como ponto central no escândalo. A produção do documentário então passou a realizar um trabalho sobre a revelação do esquema de doping russo com depoimentos e explicações do próprio Rodchenkov, que nessa altura já era próximo de Fogel, e com ele resolveu levar a história à imprensa. A história culminou na matéria “Russian Insider Says State-Run Doping Fueled Olympic Gold”, de Rebecca R. Ruiz e Michael Schwirtz, do The New York Times, publicada em 12 de maio de 2016. Sua versão impressa, de 13 de maio de 2016, teve o título “An Insider in Sochi Tells How Russia Beat Doping Tests”.

Foto: CNN

O esquema para burlar a fiscalização antidoping era batizada pelo governo russo de Ícaro, e contava com o aval e supervisão de Vladimir Putin, presidente russo. O chefe do laborátorio antidpoing da Rússia, Grigory Rodchenkov, era quem planejava o programa de doping dos atletas e era o responsável por burlar o controle da WADA. Rodchenkov explicou detalhadamente como ocorreu o esquema de troca de amostras positivas por amostras negativas durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, na Rússia.

Durante o exame, duas amostras eram coletadas em frente a um oficial de controle antidoping e armazenadas em recipiente específico, fabricado pela empresa suíça Berlinger, os chamados Bereg-Kits. Esse recipiente só seria aberto caso sua tampa fosse destruída. As amostras A e B eram levadas ao laboratório, onde A seriam analisadas e B seriam congeladas pela WADA, para análises de longo prazo. Caso a amostra A testasse positivo, a amostra B seria analisada.

People’s Daily

Operação Sochi Resultat

A operação montada pelo governo russo para atuar especificamente nas Olimíadas de Sochi foi nomeada de Operação Sochi Resultat. Em russo, resultat significa obter resultados positivos. Essa operação tinha como primeiro objetivo consguir novos frascos, novas tampas e a elaboração de um método de abrir as tampas dos Bereg-Kits. A KGB, Inteligência Russa, foi responsável pelo desenvolvimento de uma técnica para abrir os frascos, e então, a operação estava pronta para entrar em ação.

Cada atleta russo sob o programa de doping do governo possuía amostras de urina limpa armazenadas. Durante a disputa dos Jogos em Sochi, os exames realizados diariamente eram trocados por amostras limpas durante a noite. Durante o dia, agentes da FSB, atual KGB, levavam as amostras limpas dos atletas selecionados para o exame à uma sala secreta no laboratório, que a equipe russa utilizava para realizar a operação.

As urinas coletadas durante o dia de competições iam para o laboratório perto das 2h da manhã, quando pouco antes Grigory Rodchenkov, chefe do laboratório russo antidoping, recebia uma ligação e conferiria se não havia fiscalização da WADA ou do COI (Comitê Olímpico Internacional) dentro do laboratório.

As amostras A e B, quando chegavam, eram divididas em dois carrinhos diferentes. O assistente de Rodchenkov levava as amostras B até o depósito e escondia as amostras dos atletas russos em seu jaleco para substituir amostras sujas. Enquanto isso o carrinho de amostras A ia até a sala de aliquotagem. Nessa sala, para escapar de câmeras de segurança, havia um buraco em um espelho de tomada, através do qual Rodchenkov pegava da sala operacional secreta as amostras limpas deixadas durante o dia pela FSB, esvaziava o frasco A dos atletas russos e substituía pela urina limpa. As amostras B eram levadas pela KGB no escuro, pela saída dos fundos. Após duas horas voltavam com frascos B abertos para troca de urina, que seriam armazenados pelo COI.

Após a realização de perícia nos Bereg-Kits dos atletas russos que competiram em Sochi, foi constatado que o fundo de todos os frascos possuíam marcas e arranhões que indicavam que teriam sido abertos.

The New York Times

Sempre um passo à frente

A operação do governo russo para burlar os exames antidoping ao longo dos anos é o retrato de como uma máquina de Estado incentivava e patrocinava o programa de doping de seus atletas de uma forma extremamente minuciosa e estrutural. Era uma política pública institucionalizada antes mesmo do governo de Vladimir Putin. Segundo Rodchenkov, desde que ele tem conhecimento, a Rússia sempre teve um programa (Ícaro) para burlar a fiscalização internacional. Isso revela como o antidoping sempre esteve um passo atrás do doping.

De repente, o que parecia se resumir a casos isolados acaba revelando dimensões maiores do que se poderia imaginar. Um esquema que acontece de maneira sistemática e silenciosa há muitos anos vem à tona com proporções conspiratórias. Está cada vez mais claro o lugar que o doping sempre ocupou no mundo esportivo e o quão ineficaz se mostram os mecanismos de controle e fiscalização. Como em um jogo de gato e rato, o antidoping parece nunca ter conseguido alcançar e interromper as técnicas de doping, que por serem mais experientes e mais velhas, estão sempre um passo à frente.

 

Foto: CNN

Redator: Caio Torres, de São Paulo.

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