Paraciclismo Olímpico, fator “Mudança”

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segunda-feira, 12 setembro 2016
Outros Esportes

Faltavam apenas 13 voltas para acabar aquele Grande Prêmio de Lauzitzring, circuito alemão da temporada de Fórmula CART. Para nós brasileiros, a Fórmula Mundial. O ano era 2001. Dia 15 de Setembro de 2001.

Naquela semana o mundo se perguntava o porquê das coisas, o porquê da vida. Presenciamos, ao vivo pela TV, todo o ódio, a intolerância, arquitetados e consumados de forma quase cinematográfica contra uma sociedade, fatores que desencadeariam mais uma guerra sem sentido e que só provocariam mais incertezas com o passar dos anos. Mas a grande questão era se realmente estávamos seguros em nossa zona de conforto. Se ela existia, devíamos estar ali, acomodados? Esperando as coisas acontecerem em nossas vidas? Na família, relacionamento, no trabalho…de uma hora pra outra tudo poderia mudar. Agora estamos em um ponto. E daqui 5 minutos? Segundos, milésimos de segundo?

Com um ‘’simples mortal’’ ou um piloto de corridas é assim que as coisas funcionam. O italiano Alessandro Zanardi sentiu de uma das formas mais dolorosas, literalmente, o fator ‘’mudança’’. O ex-piloto de Fórmula 1 e bicampeão de Fórmula CART estava em sua temporada de retorno às pistas após um ano sabático. Para a prova, uma atenção especial para as diversas homenagens, estampadas nos carros e capacetes com a bandeira americana, às vítimas dos atentados terroristas de 11 de Setembro realizados dias antes em território americano.

Zanardi, que vinha fazendo uma temporada mediana, conduzia seu Reynard-Honda #66 da Mo Nuun Racing em brilhante corrida de recuperação. Voltava dos boxes quando os pneus, ainda frios, simplesmente o traíram. A cena do carro rodando até a pista e sendo atingido em cheio pelo canadense Alex Tagliani é tão chocante quanto à da colisão dos aviões com as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York.

O choque, a queda. A perda a 300Km/h. Mas não o fim.

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Começava aí a reconstrução de um homem. Zanardi demorou um ano para se adaptar as novas próteses, já que havia perdido as duas pernas no acidente. A sua paixão pelo esporte, pela velocidade e adrenalina o fizeram voltar às pistas, dois anos depois, em um carro adaptado.

Porém o grande marco na vida do italiano veio em outra forma de competição, o Paraciclismo*. Em 2011 Zanardi foi convidado a participar de um evento em Nova York, uma maratona. Só concordou em participar se os organizadores o deixassem correr com uma bicicleta. Pilotando agora uma handbike, (triciclo adaptado onde às mãos do condutor acionam os pedais) correu contra a desconfiança do público, dos amigos, até o da própria esposa em relação a sua nova forma de vida. Da sua parte nunca houve uma dúvida sequer. A partir deste dia não existiram mais limitações para o italiano. Novamente sentindo o gosto da competição, impôs um novo desafio a si mesmo: Participar das Paraolimpíadas de Londres, que aconteceriam em menos de um ano em Londres.

De piloto mediano com os monopostos para campeão Paraolímpico no ciclismo de estrada e contra o relógio. Também conquistou a prata no revezamento por equipes. Um feito e tanto para quem havia recebido a extrema unção, 11 anos antes. A história dourada foi escrita na lendária pista de Brands Hatch, velha conhecida de quem já passou pela Fórmula 1.

Neste ano, no Rio de Janeiro, realizamos os primeiros Jogos em território sul-americano. Nosso Parque Olímpico está localizado onde anos atrás havia o autódromo de Jacarepaguá, antigo palco da principal categoria do automobilismo mundial. Lugar onde Alessandro Zanardi já esteve e está novamente, agora, com sua renovada paixão pelo esporte.

O mundo continua se perguntando: o porquê das coisas? Porque o ódio continua a dar as cartas, a intolerância, tanto preconceito? Em tempos de desconfiança política, econômica e social temos a oportunidade de ver tudo por outro ângulo. Assistir histórias de superação e união dos povos, nem que seja por um momento apenas. Ter a certeza que sempre há outro caminho e que há como reconstruir tudo, mesmo nas piores tragédias.

Lugares. Vidas que se cruzam, se chocam. Mudanças que apenas o esporte e a arte podem gerar em sua forma mais bela.

É um legado considerável.

O Paraciclismo foi incorporado ao programa dos Jogos em 1984 divididos entre as cidades de Stoke Mandeville, Grã Bretanha e Nova York, Estados Unidos. No evento apenas atletas com paralisia cerebral poderiam competir nesta modalidade. Nos Jogos de Seoul, em 1988, atletas com outros tipos de deficiência foram autorizados a competir e o esporte passou a ser desenvolvido em outras formas como competição em estrada e contra o relógio. Na década de 90 surgiu o paraciclismo de montanha, modalidade esta que possui um elevado grau de dificuldade e é considerada uma das mais radicais para atletas com deficiência.

Alex Zanardi sings the Italian national anthem after winning gold at the Paralympic Games

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admin

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