Diretor de ‘Minas do Futebol’ fala sobre produção do filme

Diretor de ‘Minas do Futebol’ fala sobre produção do filme

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quinta-feira, 28 setembro 2017
Futebol Feminino

O documentário ‘Minas do Futebol’ foi lançado em agosto de 2017 e conta a história da equipe feminina do Centro Olímpico, campeã da Copa Muleque Travesso, torneio formado apenas por equipes masculinas. Para conquistar o título, as meninas do ADECO venceram times tradicionais como Corinthians e São Paulo. Com duração de 50 minutos, o filme destaca também a participação das atletas no primeiro Campeonato Paulista Sub-17. O diretor Yugo Hattori conversou com a Rádio Poliesportiva sobre a produção do documentário.

 

Quando surgiu a ideia de fazer o documentário sobre o Centro Olímpico?

No ano passado, quando saiu a notícia da vitória do campeonato Moleque Travesso, eu achei incrível o feito, mas apenas marquei na memória. Passou um tempo e eu queria apresentar o futebol feminino para meu sobrinho Quino, de seis anos, que começou a ficar aficionado por futebol, mas que tinha pouca ou nenhuma referência feminina. Apenas quando lançou o jogo FIFA 16 com seleções femininas, ele começou a admirar e virar fã de algumas jogadoras. Então, eu percebi como faltava conteúdo cultural paralelo do futebol como videogame, figurinhas, discussões na tv/internet (sobre futebol, sem ser sobre musas ou coisas do gênero) e filmes para o futebol feminino. Decidi fazer isso, pois na fase de pesquisa, assisti a muitos documentários interessantes sobre a modalidade, mas quase todos tinham um tom e atmosfera um pouco negativo, pois centravam nos problemas e dificuldades. Eu sentia falta de um material que exalasse esperança e que alimentasse o sonho, foi então que lembrei da história das meninas do Centro Olímpico e elas eram exatamente isso, uma grande atmosfera de sonho e esperança.

 

Como foi a experiência de falar de um assunto que ainda segue à margem da grande mídia?

Acredito que são justamente esses assuntos que precisam ser falados. Dar voz e cara para quem geralmente não é tão visto. Acho que o desafio que me impus para o filme tinha um pouco a ver sobre isso, pois como é um assunto à margem, queria tentar uma linguagem que atingisse mais pessoas para evidenciar um pouco mais a temática. Dar um tom mais “Pop” e ver a capacidade da internet de emergir o que não tem espaço e de ser democrática. Um fato que eu achei bastante curioso foi que exibi o filme numa lanchonete perto de minha casa para fazer um teste de público. E quem frequenta esse lugar é o mesmo perfil de senhores que vão em boteco passar a tarde e discutir futebol. Ao exibir o filme, começou a gerar discussão e um senhor não queria acreditar que as meninas ganharam dos meninos e que aquilo era um filme, uma ficção. Foi então que vários outros começaram a falar que ele estava errado e que mulher tem que jogar bola sim. Acho que se isso conseguisse acontecer em maior escala, poderia tornar o mundo um pouco mais agradável para meninas e mulheres que gostam de futebol.

 

Por que o filme foi disponibilizado apenas na Internet?

Na verdade ele está disponível para quem quiser exibir, mas a Internet era o requisito essencial básico para visibilidade desse projeto. Confesso que me incomodo com a estrutura de exclusividade que vários festivais e canais de tv impõe para conteúdo. Alguns não permitem que você deixe o filme aberto por um período de tempo razoável e isso para mim seria impensável para esse projeto. O Futebol Feminino já tem problemas de visibilidade, as meninas tem 13, 14 e 15 anos, um ano de exclusividade é limitar muito e na vida delas pode significar perder uma exposição necessária.

 

Para fazer um documentário é necessário estudar o assunto abordado. O que mais te marcou ao estudar sobre a modalidade?

Acredito que algumas coisas tão básicas, como a profissionalização da modalidade aqui no Brasil ainda ser uma realidade um pouco distante, que precisa de muito trabalho político para ser viabilizado. Mesmo com muitas mulheres como a Aline Pellegrino e a Emily Lima fazendo um trabalho tão bom e importante para melhorar as condições. Outra coisa, que nesse caso está presente no filme, é como a cultura machista faz com que ainda não tenha um trabalho de educação física completo para as meninas e muitas vezes os pais não a apoiam as decisões das filhas. Esses dois pontos que influenciam muito na formação de base e é de certa forma, muito simples de resolver.

 

Como foi o convívio com as atletas, funcionários e familiares das atletas durante a produção do filme?

Maravilhoso sempre! Desde o primeiro contato foram todos muito amigáveis e receptivos. Sempre me senti acolhido e com o tempo fui me sentindo parte da família. Tenho um carinho muito grande por todos.

 

Você acredita que seu documentário pode colaborar para abrir mais espaço na mídia para a modalidade?

Acho que tudo que é produzido, quanto mais fizerem coisas sobre, quanto mais falarem sobre, já é um avanço. O filme é mais um passo dentre vários outros.

 

Do dia em que teve a ideia, até a estreia do filme qual momento desse processo você destacaria?

Gosto de pessoas. Acho que conhecer e virar amigo das jogadoras, da comissão e dos familiares. Isso já me basta. Ouvir de outras pessoas que o filme ajudou a seguir em frente no sonho também é uma delicia. Se der para fazer a vida de outra pessoa um pouco melhor, já valeu a pena.

O diretor ainda comentou sobre o cenário audiovisual brasileiro.

 

Sua área ainda é majoritariamente masculina? Conhece muitas cineastas mulheres? Quais destacaria?

Infelizmente o audiovisual ainda é uma área que tem reflexos do machismo da sociedade e acaba sendo predominantemente masculina. Dentre as áreas do cinema, acredito ser a fotografia uma das com maior disparidade de gênero. Destaco cinco nomes que me inspiro muito, começando com a Miriam Chnaiderman. A Agnes Vardá que adoro os filmes e principalmente os documentários e sua forma de conduzir a narrativa. A Anna Muylaert que tem ótimos filmes e atualmente está numa fase maravilhosa. E tem duas diretoras que são amigas minhas, mas cito porque realmente acho que são ótimas cineastas e aprendo muito com elas que é a Dani Libardi, uma das diretoras da série 3% do Netflix, e a Carol Rodrigues, diretora de ‘A boneca e o silêncio’.

 

 

 
Foto de capa: Arquivo Pessoal
Redatora da matéria: Natália Santana, de São Paulo 

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