A história do turfe no Brasil e o desafio de torná-lo mais popular e informal

A história do turfe no Brasil e o desafio de torná-lo mais popular e informal

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segunda-feira, 21 agosto 2017
Grandes Reportagens

Por Leonardo Guandeline e Luiz Máximo

Em um bar da Zona Oeste de São Paulo, em meio a petiscos e baldes com gelo e garrafas de cerveja dentro, um grupo de amigos olha fixamente as imagens de alguns televisores existentes no local. De tempos em tempos, alguns deles saem da mesa e se dirigem até um guichê que destoa um pouco do ambiente. Fazem apostas. Placê, dupla, trifeta e quadrifeta são algumas delas. Depois, voltam aos seus lugares. Entre um gole e outro no copo de cerveja, fitam, ansiosos, novamente os monitores. Terminado mais um páreo, decepção. Nenhum deles vibra. Em uma mesa distante, um senhor mais velho que todos do grupo, que mascava um palito de dente, comemora timidamente. Levanta da cadeira. Vai ao lavabo e passa uma água no rosto. Em seguida, recolhe o que ganhou no guichê, paga a conta e deixa o local.

O turfe surgiu na Antiguidade e tem registro de corridas no Egito e na Grécia – Foto: Divulgação/Jockey Club Brasil

Além de bar, o paulistano Dona Mathilde é também uma agência de apostas credenciada pelo Jockey Club de São Paulo. Lá, é possível ganhar ou perder dinheiro em páreos de turfe, de quinta a segunda-feira. As corridas de cavalo, acompanhadas ao vivo pelos monitores, acontecem em alguns dos principais hipódromos do Brasil, entre eles o de Cidade Jardim (SP), o de Cristal (RS), Tarumã (PR) e o da Gávea (RJ).

As apostas, atualmente, também podem ser feitas pela internet, através dos sites da PMU Brasil, empresa francesa que administra as apostas do Jockey Club Brasileiro (JCB) desde 2015, e do WebTurfe, o site de apostas do Jockey Club de São Paulo. O valor mínimo é de R$ 2 e a premiação varia de acordo com a modalidade e o rateio.

Apesar de menos popular nos dias atuais, a promoção do turfe e a realização de apostas em todo o território brasileiro é regida por lei federal (número 7.291, de 19 de dezembro de 1984).

 

Os primórdios das corridas de cavalo

A modalidade tem origem no Egito e na Grécia Antiga, com registro de disputa nos Jogos Olímpicos de 648 a.C. Na Idade Contemporânea, a Inglaterra é considerada o berço do turfe, que é a corrida de cavalos conduzidos por um jóquei ou uma joqueta. A modalidade é sempre disputada em pistas ovais, de grama ou areia, com cada animal correndo em uma raia.

O turfe chegou ao Brasil praticamente junto com a Corte Portuguesa, trazido pelos ingleses, no início do século XIX e teve as primeiras corridas realizadas no Rio de Janeiro, na década de 1810, nas areias da Praia de Botafogo.

A modalidade, contudo, se popularizou a partir da década de 1930, com o surgimento do Jockey Club Brasileiro (no hipódromo da Gávea, em 1932, com a fusão de dois clubes promotores de corridas de cavalos: o Derby Clube e o Jockey Clube) e do hipódromo de Cidade Jardim (sede do Jockey Club de São Paulo), em 1941.

Curiosamente, o primeiro presidente do Jockey Club Braslileiro, Lineu de Paula Machado, entusiasta e promotor do turfe no Rio de Janeiro, dá nome à avenida onde está localizado o Jockey Club de São Paulo.

 

O primeiro GP Brasil

No dia 6 de agosto de 1933, foi realizado o primeiro Grande Prêmio Brasil, com a vitória do cavalo “Mossoró”. O animal percorreu os 3.000 metros de grama úmida do Jockey Club Brasileiro em 189 segundos. Derrotou cavalos estrangeiros trazidos da Inglaterra e da Argentina e quase foi levantado do chão pelo público que invadiu a pista após sua lendária vitória.

“Mossoró” foi o primeiro cavalo vencedor do GP Brasil de Turfe, em 1933 – Foto: Acervo Jockey Club Brasileiro

Uma curiosidade é que “Mossoró” foi criado no agreste pernambucano, região de clima seco e quente, considerada imprópria para o desenvolvimento de um cavalo de corrida. No dia seguinte ao triunfo, o cavalo sertanejo ganhava as manchetes dos principais jornais do país.

Desde então, o GP Brasil tem sido a mais expressiva prova do turfe nacional, com presidentes da República presentes na maioria de suas edições durante os áureos tempos.

A partir de 1972, contudo, o páreo da principal prova do turfe brasileiro passou a ser de 2.400m.

Em São Paulo, a principal corrida é o GP São Paulo, disputado em 2.400 metros, na pista de grama do hipódromo de Cidade Jardim. A primeira edição da prova, no entanto, foi disputada em 1923, no hipódromo da Mooca.

 

As apostas

Desde os prímóridos do turfe no Brasil até 1872, as apostas em cavalos no Rio de Janeiro eram feitas de maneira informal, geralmente pelos donos dos animais e alguns frequantadores de corridas. Naquele ano, no entanto, passaram a ser controladas pelo Jockey Club e realizadas dentro de suas dependências.

Nas décadas seguintes, até o surgimento de casas de apostas fora dos hipódromos, algumas pessoas associavam o turfe a jogos de azar, em razão da existência de agenciadores de apostas (bookmakers) nas ruas da capital fluminense.

Recorte de jornal quando as disputas em São Paulo ainda aconteciam no hipódromo da Mooca – Acervo Jockey Club de São Paulo

Com o auge da popularidade entre as décadas de 1930 e 1950, o turfe, todavia, começou a decadência em 1960. Naquele ano, o então presidente Jânio Quadros confinou os páreos aos fins de semana, proibiu a entrada de menores de 21 anos nas dependências dos hipódromos e criou postos para receber apostas fora dos locais de corrida.

Atualmente, o esporte no Brasil e as apostas têm recuperado o fôlego depois de um período em baixa. A volta do público e a criação de competições mais relevantes, como o Desafio dos Campeões, estimulam os apostadores de longa data e atraem os principiantes.

Além de apostas como a do vencedor e trifeta, onde a ordem de chegada correta premia os envolvidos, existem outras mais complexas, como a Fast 6, que é a aposta certeira nos vencedores dos seis páreos mais importantes da reunião (conjunto de corridas de cavalo).

Cada páreo, independente das apostas, possui uma premiação em dinheiro ao proprietário do cavalo vencedor. O jóquei, o criador e o treinador também recebem uma quantia da premiação, na maioria das ocasiões.

Recuperação da popularidade

Atualmente, o desafio dos envolvidos com o esporte é recuperar a popularidade do turfe.

Este ano, por exemplo, o Grande Prêmio Brasil de Turfe, realizado em junho no Rio de Janeiro,  recebeu um dos maiores públicos e investimentos dos últimos dez anos. Foram realizadas, pela PMU Brasil, na capital fluminense várias ações de marketing e promoção do evento, com o objetivo de atrair, principalmente, os mais jovens para a tradicional prova.

Público presente ao GP Brasil deste ano foi maior do que o das últimas edições da tradicional prova – Foto: Divulgação/Jockey Club Brasileiro

Além disso, o hipódromo da Gávea teve recreação infantil, show de jazz e área de food trucks, entre outras atrações, durante os dias do evento.

A formalidade e o elitismo da prova também parecem ter sido deixados de lado. Este ano, pela primeira vez, os homens não precisaram de terno e gravata para acessar as tribunas.

“O mundo, hoje, é mais informal”, disse, ao jornal O Globo, Luiz Alfredo Taunay, presidente do Jockey Club Brasileiro, na ocasião da 85ª edição do GP Brasil de Turfe.

Para que as apostas ganhem mais adeptos, a PMU Brasil, além da ampliação do sistema online, permite, em seu site, que brasileiros apostem em corridas internacionais.

No ano passado, a movimentação de apostas pela internet foi de R$ 195 milhões, 29% maior que a do ano anterior. Segundo a PMU, o objetivo é também reduzir a média de idade dos apostadores no país, hoje de 55 anos.

 

Foto de capa: GP Brasil de Turfe/Jockey Club Brasileiro

 

Redatores da matéria: Leonardo Guandeline, de Guarulhos e Luiz Máximo,  de São Paulo.

 

Leonardo Guandeline

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